Livro “Aprendendo a votar” gratuito até domingo

As eleições ocorreram no ano passado, mas mesmo assim o “clima político” permanece no Brasil. Que tal aproveitar e saber um pouco mais a respeito do sistema eleitoral e partidário brasileiro?

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É possível realizar mudanças no Brasil?

Hoje anuncia-se o novo presidente da Petrobras. Ao que tudo indica, o atual presidente do Banco do Brasil irá assumir o cargo. Como afirma Thaís Heredia, será algo como “se não tem tu, vai tu mesmo”. E o G1 afirma que “estatal trocou ‘seis por meia dúzia’“. Fiquei com a pergunta na cabeça: é possível mudar a estrutura política do Brasil?

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Diálogo ou novas imposturas?

Em uma democracia não cabe às oposições, como ao povo em geral, senão aceitar o resultado das urnas.

Por Fernando Henrique Cardoso

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“Ainda é cedo para cravar a vitória de Dilma”

O cientista político Wanderley Guilherme dos Santos não nega o favoritismo da presidenta, mas alerta que muita coisa pode acontecer.

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Absurdos sigilos de uma CPMI

Realmente, às vezes é factível acreditar na frase da música da Rita Lee, na qual ela canta “já dizia o general de Gaule… Este país não é sério…”. Basta olharmos para as inúmeras “peripécias” feitas não apenas pela nossa “oposição”, mas também pela base do governo, para se perceber o quão imaturos politicamente são nossos representantes. E, se são nossos representantes, no fundo, no fundo, quem é imaturo?

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A oposição na sociedade

O que chamamos oposição, na maior parte das vezes, diz apenas respeito ao mundo da política institucionalizada. Fundamentalmente, aos partidos oposicionistas, seus representantes, organizações e (poucos) filiados. Uma das razões para isso é que é modesta, no Brasil, a atuação de grupos de pressão e associações civis voltadas para a política. Existem, mas são, ainda, pouco relevantes.

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O que leva pessoas às ruas

O texto abaixo parte do princípio de que as pessoas não vão para as ruas no momento político atual porque não têm muito a ganhar diretamente com as mudanças que teoricamente viriam como consequência das manifestações. E vocês, o que acham disso? Concordam ou discordam da ideia? E por que? Vamos fazer um debate sobre este tema? Aguardo sugestões.

Em 1983, o regime militar inaugurado no país 19 anos antes dava claros sinais de esgotamento. A oposição crescera no Congresso e governava alguns Estados importantes. A inflação disparava corroendo os salários. Fecharia o ano alcançando a casa dos 239%.

Foi quando a oposição teve a ideia de deflagrar uma campanha pelo restabelecimento das eleições diretas para presidente da República. Desde o golpe militar que o presidente era eleito pelo Congresso e por uma pequena fatia de deputados estaduais.

O primeiro comício pelas “Diretas, Já!” ocorreu em Abreu e Lima, município do Grande Recife, no dia 31 de março daquele ano. Não deixou registro sobre o número de participantes.

O segundo ocorreu na Praça Cívica de Goiânia no dia 15 de junho. Eu estava lá.

Goiás era governado por Iris Rezende, do PMDB. Que mobilizou a máquina pública e reuniu cinco mil pessoas para ouvirem um discurso inflamado do deputado Ulysses Guimarães, líder nacional da oposição.

No dia 27 de novembro, em São Paulo, sob o comando do governador Franco Montoro (PMDB), 15 mil pessoas se reuniram na Praça da Sé pedindo “Diretas, Já!” Novamente a máquina pública foi acionada para garantir o sucesso do comício.

O governador Leonel Brizola (PDT), do Rio de Janeiro, decretou ponto facultativo nas repartições, fechou as escolas, pôs para circular transporte gratuito e ajudou a reunir um milhão de pessoas diante da Igreja da Candelária no dia 10 de abril de 1984.

Foi o maior comício das “Diretas, Já!”, que dali a seis dias foi superado por outro comício em São Paulo que atraiu um milhão e quinhentas mil pessoas.

A emenda que restabelecia as “Diretas, Já” foi derrotada no Congresso na noite de 25 de abril. Obteve 298 votos a favor, 65 contra e três abstenções. Como 112 deputados preferiram fugir do plenário da Câmara, a emenda acabou arquivada por não ter alcançado o número mínimo de votos para sua aprovação.

Ao longo de sua história, em poucas ocasiões o país testemunhou manifestações políticas de grande porte que não tenham dependido de mobilização da máquina pública.

O cortejo que levou o corpo do presidente Getúlio Vargas do Palácio do Catete ao aeroporto Santos Dumont, no Rio, foi uma dessas ocasiões. A passeata de um milhão de pessoas no Rio contra a ditadura, em 1968, foi outra.

Penso que isso ajuda a compreender porque os atuais e esporádicos atos contra a corrupção têm feito tão pouco sucesso de público.

Não há governos, partidos, movimentos sociais organizados por trás deles. Também não há uma ditadura a ser derrubada. Nem a ameaça de vermos nossos bolsos esvaziados.

Há somente o sentimento difuso de que a corrupção se alastra e de que pouco se faz para combatê-la de verdade. Isso não manda ninguém para as ruas – no máximo para os computadores.

(Original aqui.)

PSD é golpe na fidelidade partidária

Ponto vital em qualquer legislação sobre partidos, eleições e políticos, a fidelidade partidária volta a dividir opiniões, com a matreira criação do Partido Social Democrático, PSD, legenda de conveniência para o prefeito Gilberto Kassab, eleito pelo DEM, evitar o emparedamento entre o PT e o PSDB paulistas e se aproximar do governo Dilma Rousseff.

A manobra de Kassab e aliados tem atraído vários demistas e serve de pretexto para oposicionistas inseguros na oposição debandarem em busca do remanso no bloco situacionista, num período em que o Planalto usa sem cerimônia o poder para cultivar — e até tentar ampliar, como se vê — a maioria parlamentar obtida nas urnas.

A questão é saber se Kassab e seguidores têm base legal para contornar o princípio da fidelidade partidária, um dos pressupostos do sistema de representação política. Ele já foi bastante frouxo no passado, quando, entre a contagem dos votos e a posse dos parlamentares, a vontade do eleitorado era transformada em farrapos por força da capacidade de atração de prefeitos, governadores e do presidente da República. Era um gritante estelionato eleitoral.

As normas ficaram mais duras, como devem ser, até que, ao responder a uma consulta, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) admitiu a troca de legenda, sem perda de mandato, por quem fosse participar da fundação de uma nova legenda.

De boa-fé, o tribunal entendeu que não fazia sentido punir alguém contrariado pelos rumos ideológicos e políticos de sua legenda e/ou por sofrer alguma perseguição no partido pelo qual se elegeu.

Abriu, porém, a brecha para a má-fé. Ora, o PSD é ressuscitado — a sigla foi criada por Getúlio para abrigar correligionários fora do figurino trabalhista do PTB, também idealizado por ele — apenas para atender à exigência da Justiça eleitoral.

Com razão, o PPS, legenda também prejudicada pela esperteza engendrada em São Paulo por quem deseja se aproximar do PT e da base do governo Dilma Rousseff, protocolou no Supremo uma Ação Direta de Inconstitucional (Adin) contra a acrobacia de Kassab e aliados.

Distribuída para o ministro Joaquim Barbosa, a ação se sustenta em argumentação bem fundamentada: em 2007, quando o STF estabeleceu que os mandatos são de propriedade dos partidos, e deixou a regulamentação do veredicto para o TSE, não remeteu um “cheque em branco” para a Justiça eleitoral.

Entende o PPS que políticos podem abandonar um partido para criar outro, mas continuam proibidos de levar na mudança os mandatos. O problema se agrava quando é perceptível que o ressurgimento do PSD visa a servir a projetos pessoais específicos.

Perguntado numa entrevista de rádio (Estadão ESPN) sobre o posicionamento ideológico do novo partido, o prefeito de São Paulo esbanjou subjetividade: “Ele não será de direita, não será de esquerda, nem de centro”, apenas contará com um “programa a favor do Brasil”. Nem contra, nem a favor, muito menos pelo contrário.

Não se nota mesmo qualquer forte justificativa para a Justiça permitir que a fidelidade partidária seja atropelada nesse surto de adesismo surgido em São Paulo.

(Original aqui.)

Aí fica difícil

Um olhar rigoroso sobre a política brasileira indica que o clientelismo derivado dos programas sociais é uma suposta verdade ainda em busca de comprovação. Os pobres não são diferentes dos ricos ou da turma que fica no meio da escala social

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso reagiu mal às duras críticas disparadas contra o texto dele publicado na edição mais recente da revista Interesse Nacional. A faceta de espetáculo da polêmica já envelheceu um pouquinho, mas o cerne do debate é atualíssimo.

Então vale a pena continuar a discussão.

Qual é o núcleo da argumentação do ex-presidente tucano? Que o governo do PT instituiu por meio das diversas políticas públicas uma rede de clientelas, especialmente no povão mas não só, e que é inútil o PSDB disputar essa base social com o PT.

Em vez disso, diz FHC, a oposição deveria buscar preferencialmente a nova classe média. Que, recém saída da base da pirâmide, bate de frente com o déficit de cidadania, de oportunidades, de bem estar.

Na esteira do artigo do ex-presidente tucano, já foi bem dissecado o equívoco de imaginar uma descontinuidade entre o povão e a classe média. Signifiquem o que significarem esses dois elásticos conceitos.

O Brasil não é uma sociedade de castas, é um país de mobilidade social cada vez mais intensa. As classes conectam-se por largos vasos comunicantes.

Mas o ponto da polêmica talvez seja outro. É mesmo verdade que os programas de combate à pobreza quando conduzidos por governos do PT criam uma clientela política? Se for verdade, será razoável concluir que os conduzidos pelo PSDB também criam.

Ou por acaso as campanhas eleitorais dos políticos do PSDB que implementam programas sociais pedem encarecidamente ao povo que não vote neles, para não dar a impressão de clientelismo?

O absurdo do parágrafo anterior é um sintoma de que talvez a premissa esteja errada.

E se estiver, terá sido ótimo FHC levantar a lebre, para que possa ser devidamente abatida. Como disse na coluna anterior sobre o tema, talvez tenha sido a maior contribuição do texto à luta da oposição.

Um olhar rigoroso sobre a política brasileira indica que o clientelismo derivado dos programas sociais é uma suposta verdade ainda em busca de checagem.

Os pobres não são diferentes dos ricos ou da turma que fica no meio da escala social. Votam nos governos de que gostam e votam na oposição quando não gostam do governo.

E é absolutamente cidadão que o eleitor beneficiado por um forte aumento do Bolsa Família ou do salário mínimo escolha os candidatos que julga mais confiáveis para continuar as políticas com as quais concorda.

Nada a ver com clientelismo.

Os programas de renda mínima levam em certas situações o trabalhador a preferir não aceitar uma proposta de emprego de baixíssima remuneração?

Paciência, melhorem as ofertas. Se não podem pagar um salário decente, se a rentabilidade exige trabalho degradante, talvez seja melhor então repensar o negócio.

Situações particulares não permitem concluir que o Bolsa Família e outros programas de transferência de renda criam dependência ou geram acomodação.

Se mesmo quem já tem muito quer sempre ter mais e viver melhor, por que o muito pobre que não tem quase nada vai se acomodar só por receber algum dinheirinho do governo todo mês?

Mais provável é que esse dinheirinho sirva para criar cidadania, e não dependência. Que pai não quer para o filho uma vida melhor e horizontes mais amplos do que ele próprio teve?

A grande sacada dos programas sociais é dar condições de progredir na vida a quem não conseguiria sozinho executar o primeiro passo.

Uma parte da oposição tem relação crítica e dividida com os programas sociais. Uma hora diz que os criou, para em seguida engrossar o caldo de quem vê automaticamente demagogia quando o governo —qualquer governo — se atreve a propor mais repasse de dinheiro público para os pobres.

Estes primeiros meses de governo Dilma Rousseff são um cenário da contradição.

Com a inflação bombando, o crescimento indo bem e a receita adicional decorrente das mandracarias no câmbio, os números mostrarão ao longo do ano que teria havido dinheiro suficiente para pagar bem mais do que R$ 545 de salário mínimo. E também para dar aumento real aos aposentados.

Mas quando os bons números dos impostos aparecerem, o que você acha que o PSDB vai cobrar do governo? Vai dizer que o governo mentiu quando disse que não haveria recursos para um mínimo maior? Ou vai saudar o cumprimento do superávit primário e dizer que isso comprova a continuidade da política econômica de FHC?

Aí fica mesmo difícil falar com o povão.

(Original aqui.)

Aonde vai a nova classe média

Quem conquistará os votos dos 20 milhões de brasileiros que subiram de patamar nos últimos anos?

A bola estava no ar, faltava cortar. Foi o que fez o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, num artigo para a revista Interesse Nacional que ganhou o noticiário e inverteu o jogo no debate político brasileiro. O ponto: o sociólogo e presidente de honra do PSDB tenta entender qual será o papel político da chamada “nova classe média”, cuja ascensão há muito vem sendo discutida pelos economistas. Como vão se comportar eleitoralmente os cerca de 20 milhões de pessoas que deixaram a base da pirâmide social do País para chegar à classe C, impulsionados pelo crescimento econômico e os programas sociais da era Lula? O que os partidos, em especial a oposição liderada pelos tucanos, deverão fazer para conquistar corações e mentes acostumados ao novo padrão de consumo adquirido com o aumento da renda e do crédito?

No artigo, que incendiou as torcidas de lado a lado, o ex-presidente afirma que “enquanto o PSDB e seus aliados persistirem em disputar com o PT influência sobre os “movimentos sociais” ou o “povão”, isto é, sobre as massas carentes e pouco informadas, falarão sozinhos”. E, no mês em que a presidente Dilma Rousseff completa cem dias de mandato, com seu estilo “gerencial” caindo no gosto das camadas médias e instruídas do País, FHC faz um alerta aos seus pares: “Estas, a despeito dos êxitos econômicos e da publicidade desbragada do governo anterior, mantiveram certa reserva diante de Lula. Essa reserva pode diminuir com relação ao governo atual se ele, seja por que razão for, comportar-se de maneira distinta do governo anterior”.

Estratégia? Resignação? O senador tucano Aécio Neves, potencial candidato à sucessão de Dilma, disse se considerar “mais otimista” que FHC na reconquista do “povão” – que, lembra, cerrou fileiras com o PSDB no Plano Real. Outros aliados, como o presidente do PPS, Roberto Freire, consideraram “equivocada” a proposição do ex-presidente. O PT, por sua vez, na voz sempre pronta do ex-presidente Lula, aproveitou para fustigar o suposto DNA elitista dos tucanos: “Já tivemos políticos que preferiam cheiro de cavalo ao do povo. Agora tem um presidente que diz que é preciso esquecer o povão”.

Para decifrar a inclinação política dos novos emergentes, o Aliás escalou dois especialistas: o sociólogo Jessé de Souza, autor de Os Batalhadores Brasileiros – Nova Classe Média ou Nova Classe Trabalhadora? (UFMG, 2010), e o cientista político Bolívar Lamounier, que lançou, em parceria com Amaury de Souza, A Classe Média Brasileira – Ambições, Valores e Projetos de Sociedade (Elsevier, 2009). A seguir, algumas de suas conclusões.

A aprovação de Dilma em setores de classe média aumentou. E FHC chama a atenção para a disputa pelo voto da “nova classe média”. Todos estão de olho nos emergentes?

Jessé de Souza: Os emergentes são a maior novidade econômica, social e política do Brasil na última década. Essa classe crescente é a grande novidade do “Brasil bem-sucedido” dos últimos anos, mas ainda é pouco conhecida. De um lado existe muito preconceito em relação a ela, como em geral aos setores populares no Brasil. De outro, também não cabe a percepção triunfalista que a cerca no debate público. Quando se chamam os emergentes de “nova classe média”, está se querendo dizer que no País as classes médias e não os pobres passam a formar o grosso da população. Isso está longe da verdade. Os “batalhadores”, como os chamo, se assemelham muito mais a uma classe trabalhadora precarizada, típica do pós-fordismo. Uma classe sem direitos e garantias sociais, que trabalha de 10 a 14 horas por dia, estuda à noite e faz bicos nos fins de semana.

Bolívar Lamounier: A avaliação positiva dos primeiros cem dias da presidente Dilma parece-me refletir dois fatos que nada têm a ver com a “nova classe média”. Acho que é um justo crédito de confiança, pois o governo está apenas começando. As medidas mais interessantes da presidente ocorreram no plano externo, no qual vêm sinalizando o abandono do nefasto posicionamento do governo Lula. No interno, não houve medidas significativas. Por outro lado, trata-se de uma sensação de alívio pelo fim do “estilo Lula”. Nos últimos dois anos Lula desandou a falar de todos os assuntos concebíveis, sem nenhum critério de oportunidade ou conveniência. Quanto ao ex-presidente Fernando Henrique, o que fez foi sugerir caminhos para o revigoramento das oposições, de modo geral, e do PSDB, em particular. E o fez com muito acerto. Antes que sua sugestão seja tragada num sorvedouro de equívocos, lembremos que o termo “nova classe média” vem sendo empregado para designar um agregado social correspondente a mais de 40% da população, compreendido entre R$ 1.200 e R$ 4.800 de renda familiar mensal. Não estranharei se alguém se referir à metade dessa camada como “classe trabalhadora” ou até “proletariado”. Como diz Shakespeare, a rose by any other name smells as sweet.

O que aconteceu nos últimos anos com a pirâmide social brasileira?

Bolívar: No último quarto de século, a exemplo do que ocorreu em praticamente todos os países emergentes, houve um intenso processo de mobilidade social vertical. Não só a mobilidade individual que constitui um campo tradicional de estudo dos sociólogos, mas mobilidade também estrutural, de toda uma camada, em decorrência de processos econômicos poderosos, como a abertura das economias, uma fase de vigoroso crescimento da economia mundial e, no caso brasileiro, o controle da inflação e a consequente expansão do crédito. Em vez dos integrantes da classe média tradicional, que apenas almejavam reproduzir o status dos pais, num universo mais ou menos estático, os da “nova” classe média têm a ambição de “subir na vida”, viver melhor, consumir mais e, portanto, aprender e se qualificar a fim de gerar a renda consentânea com essa forma de viver. É pois de estratificação e mobilidade que falamos. Mesmo mobilidade é misleading, pois não se trata de mobilidade individual. O que há é uma grande estrutura mudando, e isso num mundo que vem passando por mudanças acentuadas há várias décadas.

Jessé: O crescimento econômico brasileiro beneficiou tanto os setores superiores e privilegiados quanto os populares. Mas o crescimento mais dinâmico veio da “parte de baixo” da sociedade brasileira, o que mostra o efeito positivo para todos – inclusive para os setores privilegiados que ganham e muito com o novo quadro econômico – de políticas simples como o Bolsa Família e o microcrédito. O desafio para a transformação efetiva da “pirâmide” em “losango”, onde as camadas médias, pelo menos quanto à renda, são maiores que as de baixo e as de cima, implica manter aumentos reais do salário mínimo e aprofundar a política social. Existe um “núcleo duro” da “ralé” – nome provocativo para denunciar o abandono de uma classe que nem sequer é notícia fora das páginas policiais – que precisa de muito mais que estímulos econômicos tópicos e passageiros para ser incluída no mercado competitivo.

O conceito de classe média não é consensual nas ciências sociais. Que características aproximam e distanciam essa nova camada da definição clássica de classe média?

Jessé: Não é apenas o conceito de classe média, o próprio conceito de classe social é percebido superficialmente no debate público. Isso porque uma adequada compreensão do processo de formação das classes permite a crítica do princípio social mais importante para a legitimação de todo tipo de privilégio injusto das sociedades modernas: o princípio da meritocracia. O privilégio injusto nessas sociedades é travestido como justo porque ele é percebido como fruto do “desempenho individual extraordinário”. Uma correta percepção dos “emergentes”, no entanto, exige que percebamos o “tipo humano”, com dramas, tragédias, sonhos e capacidades singulares, específico dessa classe. Não basta quantificar sua renda. É necessário comparar essa nova classe tanto com as classes médias “verdadeiras” quanto com os desclassificados sociais, que chamo de “ralé” para denunciar seu abandono. Os “emergentes” ou “batalhadores” não possuem nenhum dos privilégios de nascimento da classe média verdadeira. Mais especialmente o tempo livre que permite a apropriação do conhecimento útil e valorizado chamado por Pierre Bourdieu de “capital cultural”, que caracteriza a classe média verdadeira. Se a apropriação privilegiada de “capital econômico” marca as classes altas, é a apropriação privilegiada de “capital cultural” que marca as classes médias modernas.

Bolívar: A pergunta suscita a clássica discussão entre as sociologias marxista e weberiana. No marxismo, o conceito de classe tem dois componentes principais. De um lado, certa homogeneidade de condições, e portanto coesão, consciência de si, capacidade de agir coletivamente. Do outro, uma posição comum na estrutura de produção. Especificamente em relação às camadas médias – ou à “pequena burguesia”, como os marxistas as designavam, torcendo o nariz -, fazia-se também uma profecia: a de que elas estariam condenadas a definhar, ensanduichadas entre a burguesia e o proletariado. Já a sociologia weberiana concebe as classes como agregados sociais que raramente chegam a se tornar conscientes e a agir de maneira unitária no campo político. Os membros de uma classe se definem em função de recursos como a educação, o conhecimento especializado, disponibilidades patrimoniais, etc – valorizáveis nos diferentes “mercados sociais”. A ótica weberiana pensa em camadas sociais que não encolhem, ao contrário, se expandem à medida em que o capitalismo avança.

Em diferentes momentos da história, as classes médias assumiram posições progressistas ou retrógradas. Como essa nova classe emergente poderá se portar politicamente?Jessé: Os “batalhadores” não são uma classe homogênea. Nem sequer se percebem como classe. Estamos adentrando um terreno novo que ainda exige estudo e reflexão. O que pude perceber em minha pesquisa são resultados díspares e heterogêneos. Ainda que a ideologia do “mérito individual” tenha convencido, por razões compreensíveis, parcelas ponderáveis dessa classe, o que a aproxima das classes médias “verdadeiras”, a maioria dos batalhadores se mostrou sensível e favorável aos programas sociais de distribuição de renda – com uma sensibilidade social maior que nas classes do privilégio. A direção política que a classe emergente vai tomar é, portanto, uma luta em aberto. Ela tanto pode ser colonizada pelas classes dominantes economicamente dinâmicas, politicamente conservadoras e socialmente irresponsáveis que caracterizam a sociedade brasileira, como se transformar num protagonista novo, uma “luz no fim do túnel” que sirva de inspiração e exemplo para o exército de abandonados sociais no Brasil. De qualquer modo sua função de fiel da balança tanto da economia quanto da política brasileira no futuro próximo parece certo.

Bolívar: Descartemos, desde logo, a ideia de um comportamento rigorosamente unitário, afinal estamos falando de um agregado com mais de 40% da população. Segundo, descartemos o determinismo que ainda assombra o imaginário de alguns sociólogos. Se as novas classes médias necessariamente devessem se comportar de um jeito ou de outro, o ponto de vista expresso por FHC não faria sentido. De duas, uma: elas seriam inacessíveis ao apelo da oposição ou já a estariam apoiando. Nem uma coisa nem outra. Trata-se de um terreno contestado, como tudo na vida política. Depende da agenda política. Basta lembrar que elas contribuíram maciçamente para a vitória de FHC em 1994 e 1998 e para as de Lula em 2002 e 2006.

Observadores do Congresso notam a presença cada vez maior de sindicalistas na representação parlamentar. Que consequências isso traz à estrutura social brasileira?

Bolívar: De fato, esse é um fenômeno apontado por diversos observadores, como Leôncio Martins Rodrigues. É um processo perfeitamente normal, que acontece em todas as democracias capitalistas avançadas. Quer isso dizer que tais lideranças vão exercer seus mandatos de uma maneira estreitamente fiel aos trabalhadores de menor renda, ou consentânea com interesses legítimos da sociedade como um todo? Aqui, vamos devagar com o andor. Lembremos, para começo de conversa, que os sindicatos brasileiros continuam em geral gostosamente acomodados na estrutura corporativista implantada ao tempo da ditadura Vargas. Lembremos também a profecia de Robert Michels no clássico Os Partidos Políticos, de 1908. O autor previu que mesmo nos partidos socialistas a tendência seria a de os sindicalistas se incrustarem na alta burocracia, formando uma espécie de “nova classe”. No Brasil, não faltam sinais disso. Como bem lembrou FHC, o governo Lula “aparelhou” a máquina do Estado e cooptou as principais centrais sindicais.

Jessé: Dentro de certas circunstâncias excepcionais o Congresso e especialmente o Executivo no Brasil podem mudar a realidade social e política. Em condições normais, no entanto, a política de “verdade”, que estipula quem ganha e quem perde na competição social, é realizada fora dos órgãos representativos. O Estado não é o único centro da vida política, ainda que seja o “teatro” para o qual todas as luzes apontam. No novo tipo de capitalismo financeiro hoje hegemônico, por exemplo, boa parte da política é transformada em “questão técnica” e aplicada como necessidade econômica. A tentativa, aliás muito bem-sucedida, de se vincular a determinação da taxa de juros entre nós unicamente ao combate à inflação serve para travestir o interesse particular de financistas. Nesse sentido, ganhar a esfera pública e a mídia significa selecionar os assuntos que se tornam pauta política e ridicularizar opiniões contrárias. Um poder maior que o de qualquer bancada no Congresso. A demonização do Estado como ineficiente, politiqueiro e corrupto – como se o mercado fosse o oposto disso – serve, do mesmo modo, para transformar as esferas sociais, como a educação e a saúde, que deveriam independer da sorte ou do azar da classe de nascimento e ser acessível a todos, em esferas de lucro privado.

No artigo, FHC diz que “enquanto o PSDB e seus aliados persistirem em disputar com o PT influência sobre os movimentos sociais ou o povão, isto é, sobre as massas carentes e pouco informadas, falarão sozinhos”. É uma avaliação que faz sentido?

Bolívar: Eu assino embaixo, e uma de minhas razões está no que acabo de dizer: o governo Lula praticamente transformou os sindicatos e o petismo em apêndices do Estado, ou seja, numa máquina que se vale dos recursos do Estado para manter um quase monopólio político sobre a classe trabalhadora tradicional e a massa pobre.

Jessé: É uma avaliação brilhante, ainda que seja preconceituosa e mostre o perverso “racismo de classe” que perpassa as classes do privilégio no Brasil, as quais FHC representa tão bem. Ela é brilhante, posto que pragmática e óbvia, procurando concentrar esforços e focar sua mensagem para uma clientela em relação à qual um partido liberal como o PSDB tem boas condições de convencer. É a mensagem do “mérito” percebido como esforço individual, que já critiquei e vê como preguiçoso e burro – as massas “pouco informadas”, no eufemismo de FHC – todo aquele que sofre humilhações e experimenta não reconhecimento e invisibilidade social desde que nascem. Na Europa os partidos conservadores manipulam o ódio aos imigrantes. Entre nós se manipula o “racismo de classe” contra os pobres, percebidos como sanguessugas de uma ordem social que, na verdade, os produz e reproduz como párias sem chance na competição social por recursos escassos.

Aécio relativizou a estratégia de FHC se dizendo “mais otimista” na capacidade de o PSDB atrair o eleitor de baixa renda. Já o presidente do PPS, Roberto Freire, considerou o artigo “equivocado”…

Bolívar: No que toca ao senador Aécio Neves, fico contente em saber que ele está relativamente otimista. Tomara que esteja certo. Quanto à reação do Roberto Freire, um líder político por quem tenho imenso respeito, não há muito que eu possa acrescentar ao que já falei. A meu juízo, a análise de FHC não é equivocada.

Jessé: A avaliação de FHC é muito mais honesta, sincera e inteligente. É a mesma estratégia do Partido Liberal alemão, por exemplo, que passou de partido nanico a partido formador da coalizão de governo usando o mesmo tipo de discurso e se dirigindo ao mesmo tipo de público que FHC agora preconiza e defende. Em um país sem história de lutas sociais que tenha logrado institucionalizar com sucesso princípios como responsabilidade social e republicanismo, como o nosso, esse tipo de discurso tem amplas condições de sucesso.

A nova presidente tem sido criticada no que diz respeito ao combate à inflação. Mesmo assim, há alguns dias, na contramão dos que pedem um aperto maior nos juros, ela reafirmou que deseja reduzi-los ao longo do mandato. Sinaliza na direção da nova classe? Jessé: Sem dúvida. Essa classe prosperou em grande medida graças ao crédito farto e facilitado tanto para seus pequenos negócios quanto para seu consumo pessoal. A luta política – a qual se traveste mais do que nunca em “questão técnica” de racionalidade econômica dado que os interesses mais particulares nunca podem se mostrar pelo seu nome verdadeiro – opõe o setor rentista que vive de juros, que é a fração dominante no novo tipo de capitalismo hegemônico aqui e no mundo todo, e a esmagadora maioria da população, que tem interesse por juros não escorchantes.

Bolívar: Bem, não sou expert no pensamento econômico da presidente. Ela por certo não ignora o tamanho da pressão inflacionária que está se formando. Volto ao que dizia no início de nossa conversa. A gestão dela começou bem avaliada mais em função de expectativas que de medidas efetivas. Ela pode demorar a tomar as medidas necessárias por não levar a inflação tão a sério como seria desejável, ou por não se sentir com força política suficiente, ou por querer cortejar a “nova classe média”.

O estilo gerencial de Dilma agrada mais aos emergentes? Quando FHC chama a atenção para o risco de a presidente “envolver parte das classes médias” manifesta o temor de que o lulo-petismo conquiste hegemonia política em todas as camadas do eleitorado?

Bolívar: No que se refere a uma aceitação potencialmente maior de Dilma que de Lula, eu concordo. É um risco? Claro que é. Não existe política sem riscos. O que há é sempre um terreno em disputa.

Jessé: Acho difícil que o PSDB perca sua hegemonia nesses setores. A gestação das ideias que opõem mercado a Estado como uma oposição da virtude em relação ao vício tem larga tradição e prestígio entre nós. Também na esfera pública a hegemonia dessas ideias é praticamente absoluta. Tanto que existe grande afinidade entre setores do PT e do PSDB na política econômica. É preciso compreender a política em sentido mais alargado que o campo dos políticos profissionais para compreender quem e quais visões de mundo detêm hegemonia numa sociedade.

A ascensão da “nova classe média” é menos visível em termos educacionais. Terão os emergentes condições para pensar os problemas do País e avançar na construção de uma sociedade mais democrática e justa?

Jessé: Por trás da afirmação de FHC acerca das classes “pouco informadas” está o preconceito comum de que apenas quem tem acesso à cultura livresca pode ter uma concepção adequada e crítica do mundo. Nada mais longe da verdade. A maior parte dos livros, científicos ou não, reproduz uma percepção afirmativa e acrítica do mundo e produzem mero re-conhecimento e não efetivo conhecimento. Os pobres não são tolos e identificam muito bem seu interesse real. Claro que tempo de leitura e educação aprofundada são importantes, coisas a que os “batalhadores” têm bem menos acesso do que a classe média privilegiada. Mas essa não é a única variável importante. Para uma melhor educação política de um povo, o fator que mais pode contribuir é o acesso a uma esfera pública plural, onde toda a gama de opiniões divergentes tenha o direito de expressão livre.

Bolívar: Essa é uma pergunta relevante, pois há muita gente batendo o bumbo do grande avanço social e quase ninguém discutindo a sustentabilidade desse processo. Consumir é ótimo, mas cada família tem de gerar renda para financiar seu consumo. No mundo atual, a educação é um ponto crítico, e não preciso comentar a situação catastrófica da educação brasileira. Lula cantou aos quatro ventos o fato de ter criado 13 novas universidades. Formidável, mas a melhor universidade do País ocupa o 234º lugar no ranking mundial.

(Original aqui.)