Triste realidade

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Nossa política, mãe da “herança maldita”

A expressão “herança maldita” é recorrentemente utilizada pelo partido no poder para se referir aos seus antecessores. Será que esta é a verdadeira herança?

Teremos, na próxima legislatura, 28 siglas representadas na Câmara Federal.

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Quando palavras são desnecessárias

Quando palavras são desnecessárias
Quando palavras são desnecessárias

É imperioso fazer com que o estado não mais se aproprie do que é criado pelo cidadão, e acho que isso só pode ser feito quando o cidadão se importar com o público, não apenas com o privado.

Absurdos sigilos de uma CPMI

Realmente, às vezes é factível acreditar na frase da música da Rita Lee, na qual ela canta “já dizia o general de Gaule… Este país não é sério…”. Basta olharmos para as inúmeras “peripécias” feitas não apenas pela nossa “oposição”, mas também pela base do governo, para se perceber o quão imaturos politicamente são nossos representantes. E, se são nossos representantes, no fundo, no fundo, quem é imaturo?

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Governo derrota oposição e evita em plenário a convocação de Palocci na Câmara

Com a estratégia de evitar a convocação do ministro-chefe da Casa Civil, Antonio Palocci, o governo conseguiu cancelar algumas comissões nesta quarta-feira. Irritados com a atuação do governo para blindar Palocci, a oposição foi a plenário e apresentou dois requerimentos para que o ministro compareça à Casa e dê explicações sobre sua evolução patrimonial.

Por 266 votos contra, 72 a favor e 8 abstenções, o plenário rejeitou o requerimento apresentado pelo DEM que pedia convocação de sessão extraordinária para que o ministro-chefe da Casa Civil, Antonio Palocci, explicasse ao Congresso a evolução patrimonial. Em votação simbólica, outro requerimento apresentado pelo líder do PSDB, Duarte Nogueira (SP), também foi rejeitado.

Os partidos da base e o PV encaminharam contrários a votação do requerimento. Os partidos da oposição – PSDB,DEM, PPS e PSOL – votaram favoráveis. Em 2010, o ministro adquiriu, em nome de sua empresa de consultoria, um apartamento de R$ 6,6 milhões e de um escritório de R$ 882 mil em São Paulo.

O líder do governo, Cândido Vaccarezza (PT-SP), disse que a oposição vem agindo na tentativa de desmoralizar o governo Dilma. Ele informou que até mesmo na Comissão de Agricultura foi feito pedido para convocação de Palocci.

– O que está acontecendo nesta Casa é que a oposição declarou guerra e entra em um caminho muito perigoso. Estão fazendo oposição ao país. Não gostam da presidente da Dilma, não gostavam do Lula, e pelo jeito não gostam do país – disse Vaccarezza.

O líder do governo afirmou que Palocci já deu todas as explicações. Ele fez um apelo aos partidos da base para que todos votarem contra os requerimento que pedem a convocação do ministro-chefe da Casa Civil.

– Quero pedir a maioria desta casa para dar uma resposta clara. Vamos votar todos os requerimentos da oposição que apenas tenta prejudicar o governo Dilma – disse o líder do govenro, que também anunciou que a votação do Código Florestal está marcada para terça-feira à noite.

O líder do PSOL na Câmara, Chico Alencar (RJ) , afirmou que o partido vota sim porque é contra qualquer tipo de blindagem ao ministro Palocci.

– O ministro deve explicações à Casa – afirmou Chico Alencar.

Governo consegue cancelar várias comissões

O descontentamento da oposição começou quando a Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara cancelou a sessão que seria realizada a partir das 9h30m desta quarta-feira, na qual poderiam ser votados requerimentos de convocação de Palocci. O presidente da comissão é Sérgio Brito (PSC-BA), que pertence à base governista.

Os deputados e os jornalistas que chegavam para acompanhar a sessão eram informados, por meio de um cartaz fixado na porta da sala, que ela não seria realizada, por conta de uma sessão extraordinária no plenário, convocada na terça-feira à noite, para as 9h desta quarta-feira. Esta não é uma prática comum, já que a praxe é dar início às comissões e, caso tenha quórum no Plenário, as sessões são interrompidas.

No entanto, às 9h50m, quando a sessão na Comissão de Fiscalização Financeira já estava cancelada, o plenário ainda não tinha quórum. Apenas 102 dos 513 deputados tinham marcado presença. Ou seja, a sessão na comissão poderia ser realizada.

Outras comissões também foram canceladas, como a de Desenvolvimento Econômico. A estratégia do governo é evitar qualquer tipo de surpresa com uma convocação inesperada de Palocci.

Oposição espalha cartazes contra Palocci e seguranças retiram

Ao saberem dos cancelamentos em algumas comissões, membros da oposição começaram a colar cartazes com o dizer “Blindagem do Palocci”. No entanto, logo depois, seguranças da Câmara começaram a tirar os cartazes, informando que, sem a permissão da direção da Casa, não é possível fazer esse tipo de protesto. A colagem de cartazes só é permitida na porta do gabinete do próprio deputado.

A presidente em exercício da Casa, Rose de Freitas (PMDB-ES), convocou os líderes de partido para uma reunião, mas a oposição não compareceu. Segundo o líder do DEM na CÂmara, ACM Neto (BA), a oposição não senta mais à mesa com o governo enquanto continuar o que eles chamam de “golpe”.

– A presidente Rose me chamou para conversar, mas eu disse a ela que o diálogo está suspenso. Não conversamos com golpes – disse o líder do DEM.

– Mais cedo ou mais tarde as sessões serão retomadas e o requerimento será votado. O governo joga com a lógica do esquecimento, mas é pior para o Palocci, que continuará em evidência. Se o governo tem maioria, que nos derrote, mas que não tente ganhar por WO, porque isso é um golpe no Parlamento.

A indignação do líder do DEM foi reforçada por outros companheiros de oposição.

– É golpe. Isso nunca aconteceu antes – disse Vanderlei Macris (PSDB – SP), que apresentaria um requerimento para a convocação de Palocci na Comissão de Fiscalização Financeira e Controle.

(Original aqui.)

Maioria virtual

O comentário da presidente Dilma Rousseff sobre a dificuldade de lidar com o Congresso, mesmo o governo tendo uma esmagadora maioria, reflete bem as distorções de nosso sistema político-partidário, ainda mais se levarmos em conta que a conversa com o presidente de Portugal, Cavaco Silva, deu-se no contexto das dificuldades próprias do governo português, que tem um regime parlamentarista.

O presidente se lamentava pela situação que vive o governo português, que não conseguiu aprovar no Congresso um plano econômico essencial para a recuperação do país e perdeu por isso seu primeiro-ministro José Sócrates, do Partido Socialista, que teve que renunciar por falta de maioria.

Nada disso corre o risco de acontecer no Brasil, até mesmo porque no nosso presidencialismo de coalizão é quase impossível perder a maioria. As coalizões existem justamente para garantir a governabilidade.

No nosso caso, então, a maioria é tão esmagadora a favor do governo que dificilmente ele perde uma votação e tem condições até mesmo de aprovar emendas constitucionais, que exigem quorum maior.

A queixa da presidente Dilma evidencia apenas uma distorção do nosso presidencialismo de coalizão, que obriga o presidente, seja de que partido for, a fazer alianças parlamentares que nada têm de programáticas, chegando ao ponto máximo nos oito anos de governo Lula, que juntou sob o mesmo guarda-chuva agremiações políticas tão distintas quanto o PCdoB e o PRB da Igreja Universal.

Se bem que a nossa política é tão estranha que o mesmo o PCdoB se tornou o maior aliado do agronegócio e foi demonizado pelas esquerdas ecológicas, por ter proposto mudanças no Código Florestal que beneficiam os produtores rurais.

Mas, voltando às negociações congressuais, o governo Dilma aprofundou essa mesma linha de ação, acrescentando mais partidos à já ampla coligação que apoiava Lula, e agora ainda tem a possibilidade de contar com votos do futuro PSD, que se dispõe a não fazer oposição sistemática ao governo.

Pois mesmo assim, com a redução da oposição parlamentar, que hoje tem a menor representação dos últimos tempos, a presidente Dilma sabe que não tem tranquilidade para aprovar questões polêmicas no Congresso, e por isso não se mostra disposta a enfrentar as negociações para reformas constitucionais que seriam fundamentais, como a reforma da Previdência ou a fiscal.

Mais que isso, sabe que, mesmo nas situações mais banais, pode ter grave problema político se eventualmente desagradar a um dos partidos de sua base supostamente aliada, em especial se esse partido for o PMDB.

A virtual maioria do governo, montada à base da troca de favores, não é real, nem a fidelidade de seus aliados pode ser levada ao pé da letra.

Por todos esses motivos da realpolitik, é difícil que saia do Congresso uma reforma política que torne menos desorganizada a relação do Congresso com o governo.

Segundo alguns especialistas em legislação eleitoral, uma reforma deveria buscar o equilíbrio do sistema para que ele seja realmente representativo, sem favorecer sub-representação, e garanta uma eficiência governativa, produzindo atores políticos que atuem no Legislativo.

Não seria desejável ter um sistema de partidos fortíssimos, mas sim que o partido tenha representatividade, evitando assim a fragmentação excessiva do Congresso.

A aprovação do sistema de lista fechada pela comissão de reforma do Senado acendeu uma luz de advertência na Câmara, que também tratará do assunto.

Esse sistema eleitoral é o preferido do PT, o partido atualmente que recebe mais votos apenas de legenda, e é o partido preferido do eleitor de acordo com as pesquisas.

Talvez o PMDB também se beneficiasse desse sistema, pelo qual o partido faz uma lista de candidatos e apresenta ao eleitor, que votará apenas na legenda.

As cadeiras a que o partido tiver direito de acordo com a sua votação serão preenchidas pelos candidatos da lista, em ordem de colocação feita pela direção partidária.

Se um partido tiver direito a eleger cinco deputados em um determinado estado, os cinco primeiros da lista serão os escolhidos.

Os critérios para a colocação na lista são definidos internamente por cada partido.

O temor dos políticos é que as direções partidárias fiquem cada vez mais fortes, o que em alguns países que adotam esse sistema é chamado de “partidocracia”.

O mais provável, portanto, é que a reforma política empaque mais uma vez diante da ameaça de que os deputados percam a autonomia que hoje têm em relação ao partido, mesmo que a fidelidade partidária seja uma limitação a essa liberdade, que já foi bem maior.

Duas medidas, no entanto, poderiam ser tomadas para reduzir o número de partidos em atuação no Congresso.

A mais provável de ser aprovada é o fim das coligações proporcionais, que distorcem a vontade do eleitor, que vota em um candidato de determinado partido e acaba elegendo outros, até mesmo de uma legenda de posição política oposta. Com isso os pequenos partidos tendem a desaparecer, a não ser aqueles que têm substância ideológica, como o PSOL, ou programática, como o Partido Verde.

Outra medida saneadora seria a volta das cláusulas de barreira, que foram aprovadas com anos de antecedência para reduzir o número de partidos com atuação no Congresso e acabaram sendo vetadas pelo Supremo Tribunal Federal por questões técnicas.

Elas poderiam ser ativadas novamente como maneira de limitar a ação congressual aos partidos que realmente sejam representativos.

Se estivessem em vigor, em vez de 28 partidos no Congresso, teríamos hoje cerca de meia dúzia, o que permitiria negociações políticas menos dispersas.

(Original aqui.)

Gosto pelo teatro

O governo brasileiro é assim. Adora receber elogios do FMI, do Banco Mundial, da imprensa estrangeira especializada, dos banqueiros, das agências de classificação de risco. Mas adora também falar mal dessa turma, dos “loiros de olhos azuis”, talvez para arrancar lágrimas e suspiros do pessoal do “outro mundo possível”
 
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva esteve em Portugal e aconselhou os irmãos lusos a recusar a interferência do FMI. Portugal anda à beira da quebra. E sem governo, pois o gabinete caiu depois de falhar quando tentou no parlamento apoio político para medidas de austeridade.

Mas alguém vai ter que pagar a conta do ajuste português. Quem vai ser? A União Europeia? A Alemanha? As urnas do último fim de semana não foram exatamente estimulantes para a chanceler alemã, Angela Merkel. Como o eleitor dela reagirá quando propuserem a ele ficar com a dolorosa?

Os europeus certamente encontrarão um caminho para sair do enrosco de ter a periferia financeiramente complicada. É o caso de acompanhar. A Europa já se recuperou de coisas piores.

Mas não dá para passar batido pelas palavras do nosso ex-presidente.

Lula é o inventor de uma fórmula quase imbatível. Executar a política do FMI e atacar o FMI. É um estilo. Foi bem descrito nos telegramas vazados pelo WikiLeaks sobre as conversas reservadas da diplomacia norte-americana com a cúpula petista.

Endurecer verbalmente em público, ceder à realpolitik no particular.

No que exatamente Lula deixou de executar a essência das políticas preconizadas pelo FMI? Desde que o mundo é mundo o FMI só pede uma coisa quando vai socorrer alguém: que esse alguém se organize e mostre capacidade de pagar as dívidas.

Foi o que fez o Brasil no governo Fernando Henrique Cardoso, e continuou fazendo no de Luiz Inácio Lula da Silva. Organizou-se, institucional e operacionalmente, para ter uma razoável sobra de caixa antes de contabilizar encargos financeiros. É o tal superávit primário.

Sem falar na disciplina contábil empurrada manu militari a estados e municípios.

A linha dura imposta ao Brasil após décadas de experimentação foi quem colocou nossa economia nos trilhos. Tanto é assim que Dilma Rousseff mal assumiu e se apressou a declarar que faria um baita corte no orçamento. Para sobrar todo o dinheiro necessário ao equilíbrio das dívidas.

E talvez algum para investimentos. Mas em segundo plano. Importante é ter credibilidade, é ter o respeito dos credores.

Também por isso os trabalhadores que recebem salário mínimo e os benefícios previdenciários indexados ao mínimo ficaram este ano sem qualquer reajuste acima da inflação medida em 2010. Alguém ouviu o FMI reclamar?

Ou seja, Lula praticou na terra dos patrícios o velho método do “faça o que eu digo mas não faça o que eu faço”. Rebeldia para consumo externo, enquadramento na vida real.

O governo brasileiro é assim. Adora receber elogios do FMI, do Banco Mundial, da imprensa estrangeira especializada, dos banqueiros, das agências de classificação de risco. Mas adora também falar mal dessa turma, dos “loiros de olhos azuis”, talvez para arrancar lágrimas e suspiros do pessoal do “outro mundo possível”.

Adora mesmo é um teatro.

(Original aqui.)

Distinção necessária

Há uma diferença entre governo e Estado. Um é de grupo, o outro é de todos. Uma distinção teórica, porque o Estado é comandado pelo governo, ainda que nas democracias o primeiro tenha dose de autonomia em relação ao segundo.

No Brasil algumas iniciativas de garantir ao Estado certa independência diante do governo deram certo. O Banco Central, o Ministério Público, a Polícia Federal são exemplos. Outras deram muito errado. Um ícone do fracasso são as agências reguladoras.

Mas sempre resta a tensão. Agora mesmo a onda de acusações contra a Casa Civil desperta dois tipos de reação: no governo a ansiedade é sobre possíveis efeitos nas urnas, no Estado deve ser por apurar tudo tintim por tintim, e adotar as devidas providências.

Não é realista imaginar que faltando duas semanas para a eleição o governo esteja disposto a cortar ilimitadamente na própria carne para descobrir até onde chegaram os problemas na Casa Civil.

O Palácio do Planalto toca a bola de lado à espera do apito final do eleitor. De vez em quando alguém dá um bico para a arquibancada, pois o jogo é de campeonato. Que o diga a ex-ministra Erenice Guerra.

Mas é legítimo desejar que as instituições de Estado entrem em ação, e não há motivo para suspeitar de que não entrem. Ou de que já não tenham entrado.

Até por uma razão de ordem profilática. Se derrapou, são necessárias medidas para desestimular que volte a derrapar.

Os desdobramentos da investigação não se confundem com os resultados da eleição.

Eleição resolve um bom número de problemas, define quem vai sentar na cadeira e a turma que vai ocupar os cargos, mas não tem o efeito de interromper o processo político-institucional.

Será ruim se um eventual governo Dilma Rousseff, eleito em primeiro ou segundo turno, precisar carregar na largada um fardo desse tamanho.

Será triste se o eventual futuro governo já nascer refém da maioria parlamentar, antes mesmo da posse. Precisando entregar anéis e dedos para evitar CPIs.

E a eleição propriamente dita? Toda reta final embute turbulências, com a possibilidade de mudanças. Desta vez o quadro aponta alguma estabilidade em cima. A novidade é que Marina Silva mostra mais fôlego que Heloísa Helena e Cristovam Buarque quatro anos atrás.

A verde terá gás para fazer algo de diferente nas próximas duas semanas? Essa é a dúvida, além das indagações sobre o efeito na campanha de Dilma Rousseff das denúncias recentes.

Há variações sobre o que levou a eleição presidencial de quatro anos atrás ao segundo turno. Uns dizem que foram as fotos do dinheiro do chamado dossiê dos aloprados. Outros, a ausência de Luiz Inácio Lula da Silva no debate final do primeiro turno.

Mais provável que tenha sido uma combinação das duas coisas. Lula deu a impressão de fugir das explicações sobre um assunto grave. Isso incomodou uma parte do eleitorado dele. Que decidiu castigar o presidente-candidato. Aí veio o segundo turno, o PT conseguiu encurralar o PSDB politicamente e levar a eleição para casa.

Como venho escrevendo nos dias recentes, há situações em que o lero-lero da politicagem adquire outra dimensão, e a sociedade passa a prestar atenção e a pedir explicações. O governo tem mostrado nos últimos dias maior permeabilidade à pressão. O que é bom, mas talvez ainda não tenha vindo na dose suficiente.

Governo e oposição correm contra o relógio. Isso é uma parte do enredo. Há porém outra parte, que não obedece ao tic-tac do cronograma da Justiça Eleitoral.

Se governo e Estado interligam-se, não são a mesma coisa, como engatou esta coluna no começo.

(Original aqui.)

Sobre o (fraco) sistema partidário brasileiro

Na última semana tenho trabalhado os temas de “partidos políticos” e “sistemas eleitorais” com meus alunos. Tenho sido repetitivo e falado bastante a respeito do fato de que um dos grandes problemas do Brasil é seu sistema partidário fraco, no qual não há disciplina partidária. A notícia abaixo vem para confirmar o que foi dito em sala de aula. Destaco no texto, em negrito, algunas ideias importantes a respeito da falta de disciplina partidária.

Líder do governo diz que não haverá retaliações a aliados por votações
Câmara aprovou reajuste aos aposentados acima do que queria o governo.
Deputados decidiram ainda pelo fim do fator previdenciário.

(Original aqui.)

O líder do governo na Câmara, Cândido Vaccarezza (PT-SP), afirmou nesta quinta-feira (6) que não haverá retaliação aos deputados que desobedeceram a orientação do governo e aprovaram um reajuste maior para os aposentados que ganham acima de um salário mínimo. A mesma regra vale para o o fim do fator previdenciário, método usado atualmente para calcular o valor de aposentadorias reduzindo o seu valor em muitos casos.

Foi um erro político pontual e não terá retaliação contra ninguém”, afirmou Vaccarezza.

Ele destacou que o assunto será debatido pelo Senado ainda, onde ele espera que haja “correção”. Vaccarezza afirmou ainda que se o assunto chegar ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva poderá haver um veto com base em posições da equipe econômica.

Na noite de terça-feira (4), os deputados aprovaram um reajuste de 7,7%, retroativo a janeiro deste ano, para os aposentados que ganham acima de um salário mínimo. O governo tinha mandado uma proposta de 6,14% e aceitava elevar o percentual para 7%. A diferença entre o reajuste aprovado e o aceito pelo governo é de cerca de R$ 600 milhões por ano, segundo os cálculos da Previdência Social.

Na mesma sessão, a Câmara aprovou uma emenda que acaba com o fator previdenciário. Em ambos os casos, a maioria dos deputados governistas votou contra a orientação do Executivo.

Criado em 1999 no governo Fernando Henrique Cardoso com o objetivo de reduzir os benefícios de quem se aposenta antes das idades mínimas ou obrigá-los a trabalhar mais tempo, o fator previdenciário leva em conta quatro elementos: alíquota de contribuição, idade do trabalhador, tempo de contribuição à Previdência Social e expectativa de vida.

O fator previdenciário afeta o benefício dos trabalhadores que se aposentam por tempo de contribuição. A aposentadoria é calculada da seguinte forma: o valor dos 80% maiores salários de contribuição do trabalhador é multiplicado pelo fator previdenciário. No caso dos trabalhadores que começaram a contribuir antes de 28 de novembro de 1999, valem os 80% maiores salários desde julho de 1994.

Comentário final rápido: Cadê a disciplina partidária? Não existe no Brasil. Simples assim.

Atentados em Moscou — com comentários

(Original aqui.)

Obs.: comentários ao longo do texto, e também ao final.

Atentados de Moscou provocam reações no mundo

Após ataques em Moscou, Nova York e Washington reforçam segurança em metrôs. Polícia russa desativa uma terceira bomba não detonada. Líderes mundiais lamentam atentados. Putin promete “eliminar” responsáveis.

As autoras dos atentados desta segunda-feira (29/03) nas estações de metrô moscovitas agiram em lugares de forte peso simbólico. Uma das bombas explodiu pouco antes das 8h na estação Lubyanka, diretamente sob a sede do Serviço Federal de Segurança (FSB), agência de informação sucessora da KGB, durante a hora do rush, a poucos passos do Kremlin. E 45 minutos depois aconteceu uma segunda detonação na estação Park Kultury, perto do famoso Parque Gorky.

[Comentário: vale destacar que o local é realmente extremamente simbólico. A estação Lubyanka fica exatamente no centro da praça com o mesmo nome, no qual se localiza o prédio do FSB. Não sei se a estação ficou destruída — espero que não, pois esta é uma das estações mais simbólicas para mim. Já a estação Park Kultury é importante porque se localiza próximo ao rio Moscou e possui diversos pontos turísticos e oficiais por perto.]

Ao todo, quase 40 pessoas morreram no ataque duplo, que tanto o governo quanto populares revoltados atribuem a militantes separatistas do norte do Cáucaso. Mais de 70 ficaram feridas.

[Comentário: aqui surge um problema típico da Rússia atual: atribuir tudo aos “separatistas do norte do Cáucaso”. É claro que muitos dos atentados são realmente realizados pelos chechenos, mas há na Rússia atual xenofobia extrema em relação a todos aqueles que não são “brancos do olho azul”. É uma pena que um país tão belo se deixe levar por sentimento tão desprezível.]

Polícia procura duas suspeitas

Duas mulheres teriam, segundo informações da promotoria pública, detonado explosivos em seus próprios corpos nos vagões do metrô, pouco depois da abertura das portas dos trens. Gravações de câmeras de segurança mostrariam as suspeitas, acompanhadas de duas outras mulheres, que estão sendo procuradas pelos serviços de segurança.

[Comentário: mais um problema da Rússia atual: o controle de informações. É claro que parte-se do princípio que o estado é uma instituição confiável, e o “cidadão comum” legitima as ações do estado com base nas informações que o próprio estado lhe dá. Mas quando se fala de Rússia, a situação é mais complicada devido ao intenso controle midiático que é realizado pelo governo daquele país — basta lembrar os casos relativamente recentes de jornalistas “independentes” que foram assassinados nas ruas de Moscou.]

Nenhuma organização assumiu de imediato a autoria dos atentados. O FSB atribui os ataques a grupos militantes do norte do Cáucaso.

As forças de segurança descobriram no decorrer do dia mais cargas explosivas não detonadas em uma das estações afetadas. Na estação Park Kultury, foi encontrado e desativado um cinto de explosivos não detonados, segundo a agência estatal de notícias Ria Novosti, que cita informações de investigadores. Na estação, foi também encontrada a cabeça e outras partes do corpo de uma das suicidas, com a idade entre 18 e 20 anos.

[Comentário: mais uma vez surge a dúvida: será que realmente houve mais uma carga de explosivos ou isso foi “armação” para colocar a culpa nos chechenos? Infelizmente, não há como ter muita certeza quando se fala de “informações oficiais” na Rússia — é quase uma questão de fé crer (ou não) nas informações passadas pelo governo.]

Nova York e Washington aumentam policiamento

Como reação às explosões no metrô de Moscou, a segurança nos transportes coletivos de algumas das principais cidades dos Estados Unidos foram reforçadas. A polícia de Nova York anunciou nesta segunda-feira ter reforçado o policiamento nos metrôs da cidade, embora não tenha havido ameaças específicas, como ressaltou o porta-voz da polícia local.

As medidas são, segundo ele, meramente preventivas, em razão dos ataques de Moscou. O metrô de Washington, o mais utilizado do país, depois do metropolitano de Nova York, também reforçou sua segurança.

O presidente russo, Dimitri Medvedev, afirmou durante uma reunião de emergência que a Rússia realizará uma guerra contra o terrorismo “sem vacilações e até o fim”. Ele ordenou o fortalecimento das medidas de segurança nos transportes públicos. O trânsito das linhas atingidas foi paralisado. O primeiro-ministro, Vladimir Putin, afirmou que os mandantes dos atentados serão “presos e eliminados”.

[Comentário: não há outra coisa a se esperar dos líderes russos a não ser o recrudescimento do uso da força contra os caucasianos, especialmente chechenos. É o eterno jogo de “gato e rato” — que, ao contrário do que a maioria das pessoas acha, não começou com o fim da União Soviética. A região do Cáucaso traz problemas para a Rússia desde o século XVIII, quando tal região foi primeiramente conquistada pelo Império Russo. Ou seja, a solução para o conflito, infelizmente, ainda está longe de acabar.]

Merkel transmitiu “profundo pesar” a russos

A chanceler federal alemã, Angela Merkel, transmitiu ao presidente russo, Dimitri Medvedev, seu “profundo pesar pelos ataques” e expressou esperança de que os crimes possam ser rapidamente esclarecidos. “É chocante que tais ataques sejam possíveis no centro de Moscou”, disse a chefe de governo durante sua viagem à Turquia. O ministro alemão do Exterior, Guido Westerwelle, taxou os ataques de “abomináveis”.

O presidente norte-americano, Barack Obama, classificou os atentados como “atos terroristas violentos e abomináveis, que faltam com todo o respeito pela vida humana”. Ele afirmou que seu país é solidário com o povo russo “no repúdio a tais atos de violência”.

O metrô de Moscou é um dos mais movimentados do mundo, transportando, em média, cerca de sete milhões de pessoas nos dias úteis. Ele é um meio de transporte vital em uma cidade cronicamente afetada por engarrafamentos. Depois dos ataques, o tráfego da cidade ficou praticamente paralisado.

“Ouvi um estrondo, olhei ao redor, e tudo estava cheio de fumaça. As pessoas corriam gritando em direção à saída”, relatou Alexander Valukov, de 24 anos, que estava em um trem estacionado na direção oposta ao do veículo afetado.

Moscou teve em 2004 seu último ataque terrorista

O último caso confirmado de ataque terrorista em Moscou ocorreu em agosto de 2004, quando uma terrorista suicida se detonou em frente a uma estação de metrô, matando dez pessoas. Separatistas tchetchenos assumiram a autoria do atentado.

A polícia russa matou nos últimos tempos diversos líderes de militantes islâmicos no norte do Cáucaso. Na semana passada, as forças russas mataram durante um tiroteio o líder rebelde Anson Astemirov. As ações da polícia fazem surgir temores por represálias dos militantes.

Em fevereiro passado, o líder rebelde tchetcheno Doku Umarov ameaçou os russos, dizendo que “a zona de operações militares será ampliada ao território russo” e que “a guerra chegará às suas cidades”. Umarov também assumiu a autoria pelo atentado a bomba contra o trem Nevsky Express, entre Moscou e São Petersburgo, ocorrido em novembro, matando 26 pessoas.

Comentários finais: Infelizmente, a situação ainda é complicada na Rússia, pelo menos no que diz respeito à adequação das diferentes nacionalidades em seu território. A Rússia é um país multinacional, o que significa dizer que há vários grupos étnicos dentro do território do estado russo. Pior que isso é o fato de que algumas dessas nacionalidades — especialmente aquelas que se situam no norte do Cáucaso — não se dão muito bem entre si e não se dão muito bem com os russos. Há ainda a questão da religião — os russos étnicos são ortodoxos, enquanto que no sul do país a maioria é esmagadoramente muçulmana.

Nesse sentido, tenho dúvidas se uma abordagem fundamentada exclusivamente na violência resolverá o problema — acredito que não. Violência gera violência, e é inegável que esse ciclo perdurará enquanto o governo russo não tomar outro tipo de iniciativa para solucionar a questão. Talvez os líderes russos devessem ler um pouco mais Maquiavel, especialmente a parte da cooptação, para perceber que não adianta continuar dando “murro em ponta de faca” — pois os muçulmanos não aceitarão “simplesmente” a cultura russa, e vice-versa. Cabe à liderança russa perceber que os tempos de Ivan, o Terrível, já passaram — ainda que os métodos de Ivan estejam tão impregnados na mentalidade russa que sejam vistos como “fundamentais” pela grande maioria do povo russo.