“Uma carta aberta ao Brasil”

O título chama a atenção. Aí você vai ler o texto e percebe que o autor é um americano — e que o texto original foi feito em inglês. E sim, eu sei que você provavelmente já deve ter lido este texto, que viralizou na internet nesta semana que passou. E talvez até mesmo tenha lido alguma das críticas ao texto.

Mesmo assim, tomo a liberdade de divulgar o texto logo abaixo. Se você ainda não leu, vale a pena gastar 13 minutos do seu tempo (é o tempo estimado para a leitura dele todo). Pra mim vale a pena porque: 1) Concordo plenamente que o problema é o brasileiro, como já tive oportunidade de dizer em outras ocasiões; 2) Chama a atenção o fato de ser um “gringo” a falar coisas que, muitas vezes, preferimos deixar embaixo do tapete — mas que efetivamente precisam ser ditas.

Volto ao tema em breve aqui no site. Mas antes, deixem a seguir seus comentários. O que acham do texto? Concordam ou não?

“Uma carta aberta ao Brasil”

Querido Brasil,

O Carnaval acabou. O “ano novo” finalmente vai começar e eu estou te deixando para voltar para o meu país.

Assim como vários outros gringos, eu também vim para cá pela primeira vez em busca de festas, lindas praias e garotas. O que eu não poderia imaginar é que eu passaria a maior parte dos 4 últimos anos dentro das suas fronteiras. Aprenderia muito sobre a sua cultura, sua língua, seus costumes e que, no final deste ano, eu me casaria com uma de suas garotas.

Não é segredo para ninguém que você está passando por alguns problemas. Existe uma crise política, econômica, problemas constantes em relação à segurança, uma enorme desigualdade social e agora, com uma possível epidemia do Zika vírus, uma crise ainda maior na saúde.

Durante esse tempo em que estive aqui, eu conheci muitos brasileiros que me perguntavam: “Por que? Por que o Brasil é tão ferrado? Por que os países na Europa e América do Norte são prósperos e seguros enquanto o Brasil continua nesses altos e baixos entre crises década sim, década não?”

No passado, eu tinha muitas teorias sobre o sistema de governo, sobre o colonialismo, políticas econômicas, etc. Mas recentemente eu cheguei a uma conclusão. Muita gente provavelmente vai achar essa minha conclusão meio ofensiva, mas depois de trocar várias ideias com alguns dos meus amigos, eles me encorajaram a dividir o que eu acho com todos os outros brasileiros.

Então aí vai: é você.

Você é o problema.

Sim, você mesmo que está lendo esse texto. Você é parte do problema. Eu tenho certeza de não é proposital, mas você não só é parte, como está perpetuando o problema todos os dias.

Não é só culpa da Dilma ou do PT. Não é só culpa dos bancos, da iniciativa privada, do escândalo da Petrobras, do aumento do dólar ou da desvalorização do Real.

O problema é a cultura. São as crenças e a mentalidade que fazem parte da fundação do país e são responsáveis pela forma com que os brasileiros escolhem viver as suas vidas e construir uma sociedade.

O problema é tudo aquilo que você e todo mundo a sua volta decidiu aceitar como parte de “ser brasileiro” mesmo que isso não esteja certo.

Quer um exemplo?

Imagine que você está de carona no carro de um amigo tarde da noite. Vocês passam por uma rua escura e totalmente vazia. O papo está bom e ele não está prestando muita atenção quando, de repente, ele arranca o retrovisor de um carro super caro. Antes que alguém veja, ele acelera e vai embora.

No dia seguinte, você ouve um colega de trabalho que você mal conhece dizendo que deixou o carro estacionado na rua na noite anterior e ele amanheceu sem o retrovisor. Pela descrição, você descobre que é o mesmo carro que seu brother bateu “sem querer”. O que você faz?

A) Fica quieto e finge que não sabe de nada para proteger seu amigo? Ou
B) Diz para o cara que sente muito e força o seu amigo a assumir a responsabilidade pelo erro?

Eu acredito que a maioria dos brasileiros escolheria a alternativa A. Eu também acredito que a maioria dos gringos escolheria a alternativa B.

Nos países mais desenvolvidos o senso de justiça e responsabilidade é mais importante do que qualquer indivíduo. Há uma consciência social onde o todo é mais importante do que o bem-estar de um só. E por ser um dos principais pilares de uma sociedade que funciona, ignorar isso é uma forma de egoísmo.

Eu percebo que vocês brasileiros são solidários, se sacrificam e fazem de tudo por suas famílias e amigos mais próximos e, por isso, não se consideram egoístas.

Mas, infelizmente, eu também acredito que grande parte dos brasileiros seja extremamente egoísta, já que priorizar a família e os amigos mais próximos em detrimento de outros membros da sociedade é uma forma de egoísmo.

Sabe todos aqueles políticos, empresários, policiais e sindicalistas corruptos? Você já parou para pensar por que eles são corruptos? Eu garanto que quase todos eles justificam suas mentiras e falcatruas dizendo: “Eu faço isso pela minha família”. Eles querem dar uma vida melhor para seus parentes, querem que seus filhos estudem em escolas melhores e querem viver com mais segurança.

É curioso ver que quando um brasileiro prejudica outro cidadão para beneficiar sua famílias, ele se acha altruísta. Ele não percebe que altruísmo é abrir mão dos próprios interesses para beneficiar um estranho se for para o bem da sociedade como um todo.

Além disso, seu povo também é muito vaidoso, Brasil. Eu fiquei surpreso quando descobri que dizer que alguém é vaidoso por aqui não é considerado um insulto como é nos Estados Unidos. Esta é uma outra característica particular da sua cultura.

Algumas semanas atrás, eu e minha noiva viajamos para um famoso vilarejo no nordeste. Chegando lá, as praias não eram bonitas como imaginávamos e ainda estavam sujas. Um dos pontos turísticos mais famosos era uma pedra que de perto não tinha nada demais. Foi decepcionante.

Quando contamos para as pessoas sobre a nossa percepção, algumas delas imediatamente disseram: “Ah, pelo menos você pode ver e tirar algumas fotos nos pontos turísticos, né?”

Parece uma frase inocente, mas ela ilustra bem essa questão da vaidade: as pessoas por aqui estão muito mais preocupadas com as aparências do que com quem eles realmente são.

É claro que aqui não é o único lugar no mundo onde isso acontece, mas é muito mais comum do que em qualquer outro país onde eu já estive.

Isso explica porque os brasileiros ricos não se importam em pagar três vezes mais por uma roupa de grife ou uma jóia do que deveriam, ou contratam empregadas e babás para fazerem um trabalho que poderia ser feito por eles. É uma forma de se sentirem especiais e parecerem mais ricos. Também é por isso que brasileiros pagam tudo parcelado. Porque eles querem sentir e mostrar que eles podem ter aquela super TV mesmo quando, na realidade, eles não tenham dinheiro para pagar. No fim das contas, esse é o motivo pelo qual um brasileiro que nasceu pobre e sem oportunidades está disposto a matar por causa de uma motocicleta ou sequestrar alguém por algumas centenas de Reais. Eles também querem parecer bem sucedidos, mesmo que não contribuam com a sociedade para merecer isso.

Muitos gringos acham os brasileiros preguiçosos. Eu não concordo. Pelo contrário, os brasileiros tem mais energia do que muita gente em outros lugares do mundo (vide: Carnaval).

O problema é que muitos focam grande parte da sua energia em vaidade em vez de produtividade. A sensação que se tem é que é mais importante parecer popular ou glamouroso do que fazer algo relevante que traga isso como consequência. É mais importante parecer bem sucedido do que ser bem sucedido de fato.

Vaidade não traz felicidade. Vaidade é uma versão “photoshopada” da felicidade. Parece legal vista de fora, mas não é real e definitivamente não dura muito.

Se você precisa pagar por algo muito mais caro do que deveria custar para se sentir especial, então você não é especial. Se você precisa da aprovação de outras pessoas para se sentir importante, então você não é importante. Se você precisa mentir, puxar o tapete ou trair alguém para se sentir bem sucedido, então você não é bem sucedido. Pode acreditar, os atalhos não funcionam aqui.

E sabe o que é pior? Essa vaidade faz com que seu povo evite bater de frente com os outros. Todo mundo quer ser legal com todo mundo e acaba ou ferrando o outro pelas costas, ou indiretamente só para não gerar confronto.

Por aqui, se alguém está 1h atrasado, todo mundo fica esperando essa pessoa chegar para sair. Se alguém decide ir embora e não esperar, é visto como cuzão. Se alguém na família é irresponsável e fica cheio de dívidas, é meio que esperado que outros membros da família com mais dinheiro ajudem a pessoa a se recuperar. Se alguém num grupo de amigos não quer fazer uma coisa específica, é esperado que todo mundo mude os planos para não deixar esse amigo chateado. Se em uma viagem em grupo alguém decide fazer algo sozinho, este é considerado egoísta.

É sempre mais fácil não confrontar e ser boa praça. Só que onde não existe confronto, não existe progresso.

Como um gringo que geralmente não liga a mínima sobre o que as pessoas pensam de mim, eu acho muito difícil não enxergar tudo isso como uma forma de desrespeito e auto-sabotagem. Em diversas circunstâncias eu acabo assistindo os brasileiros recompensarem as “vítimas” e punirem àqueles que são independentes e bem resolvidos.

Por um lado, quando você recompensa uma pessoa que falhou ou está fazendo algo errado, você está dando a ela um incentivo para nunca precisar melhorar. Na verdade, você faz com que ela fique sempre contando com a boa vontade de alguém em vez de ensina-la a ser responsável.

Por outro lado, quando você pune alguém por ser bem resolvido, você desencoraja pessoas talentosas que poderiam criar o progresso e a inovação que esse país tanto precisa. Você impede que o país saia dessa merda que está e cria ainda mais espaço para líderes medíocres e manipuladores se prolongarem no poder.

E assim, você cria uma sociedade que acredita que o único jeito de se dar bem é traindo, mentindo, sendo corrupto, ou nos piores casos, tirando a vida do outro.

As vezes, a melhor coisa que você pode fazer por um amigo que está sempre atrasado é ir embora sem ele. Isso vai fazer com que ele aprenda a gerenciar o próprio tempo e respeitar o tempo dos outros.

Outras vezes, a melhor coisa que você pode fazer com alguém que gastou mais do que devia e se enfiou em dívidas é deixar que ele fique desesperado por um tempo. Esse é o único jeito que fará com que ele aprenda a ser mais responsável com dinheiro no futuro.

Eu não quero parecer o gringo que sabe tudo, até porque eu não sei. E deus bem sabe o quanto o meu país também está na merda (eu já escrevi aqui sobre o que eu acho dos EUA).

Só que em breve, Brasil, você será parte da minha vida para sempre. Você será parte da minha família. Você será meu amigo. Você será metade do meu filho quando eu tiver um.

E é por isso que eu sinto que preciso dividir isso com você de forma aberta, honesta, com o amor que só um amigo pode falar francamente com outro, mesmo quando sabemos que o que temos a dizer vai doer.

E também porque eu tenho uma má notícia: não vai melhorar tão cedo.

Talvez você já saiba disso, mas se não sabe, eu vou ser aquele que vai te dizer: as coisas não vão melhorar nessa década.

O seu governo não vai conseguir pagar todas as dívidas que ele fez a não ser que mude toda a sua constituição. Os grandes negócios do país pegaram dinheiro demais emprestado quando o dólar estava baixo, lá em 2008-2010 e agora não vão conseguir pagar já que as dívidas dobraram de tamanho. Muitos vão falir por causa disso nos próximos anos e isso vai piorar a crise.

O preço das commodities estão extremamente baixos e não apresentam nenhum sinal de aumento num futuro próximo, isso significa menos dinheiro entrando no país. Sua população não é do tipo que poupa e sim, que se endivida. As taxas de desemprego estão aumentando, assim como os impostos que estrangulam a produtividade da classe trabalhadora.

Você está ferrado. Você pode tirar a Dilma de lá, ou todo o PT. Pode (e deveria) refazer a constituição, mas não vai adiantar. Os erros já foram cometidos anos atrás e agora você vai ter que viver com isso por um tempo.

Se prepare para, no mínimo, 5-10 anos de oportunidades perdidas. Se você é um jovem brasileiro, muito do que você cresceu esperando que fosse conquistar, não vai mais estar disponível. Se você é um adulto nos seus 30 ou 40, os melhores anos da economia já fazem parte do seu passado. Se você tem mais de 50, bem, você já viu esse filme antes, não viu?

É a mesma velha história, só muda a década. A democracia não resolveu o problema. Uma moeda forte não resolveu o problema. Tirar milhares de pessoa da pobreza não resolveu o problema. O problema persiste. E persiste porque ele está na mentalidade das pessoas.

O “jeitinho brasileiro” precisa morrer. Essa vaidade, essa mania de dizer que o Brasil sempre foi assim e não tem mais jeito também precisa morrer. E a única forma de acabar com tudo isso é se cada brasileiro decidir matar isso dentro de si mesmo.

Ao contrario de outras revoluções externas que fazem parte da sua história, essa revolução precisa ser interna. Ela precisa ser resultado de uma vontade que invade o seu coração e sua alma.

Você precisa escolher ver as coisas de um jeito novo. Você precisa definir novos padrões e expectativas para você e para os outros. Você precisa exigir que seu tempo seja respeitado. Você deve esperar das pessoas que te cercam que elas sejam responsabilizadas pelas suas ações. Você precisa priorizar uma sociedade forte e segura acima de todo e qualquer interesse pessoal ou da sua família e amigos. Você precisa deixar que cada um lide com os seus próprios problemas, assim como você não deve esperar que ninguém seja obrigado a lidar com os seus.

Essas são escolhas que precisam ser feitas diariamente. Até que essa revolução interna aconteça, eu temo que seu destino seja repetir os mesmos erros por muitas outras gerações que estão por vir.

Você tem uma alegria que é rara e especial, Brasil. Foi isso que me atraiu em você muitos anos atrás e que me faz sempre voltar. Eu só espero que um dia essa alegria tenha a sociedade que merece.

Seu amigo,

Mark

Traduzido por Fernanda Neute

(Original aqui.)

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Livro “Aprendendo a votar” gratuito até domingo

As eleições ocorreram no ano passado, mas mesmo assim o “clima político” permanece no Brasil. Que tal aproveitar e saber um pouco mais a respeito do sistema eleitoral e partidário brasileiro?

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Novos livros digitais disponíveis

A divulgação do conhecimento é parte fundamental em minha vida. Digo isso porque, como todos sabem, sou professor, o que faz com que os atos de adquirir conhecimento e de divulgá-lo se torne algo intrínseco às minhas atividades diárias. Este site que o diga: foi criado como uma maneira de divulgar o conhecimento para além das quatro paredes de uma sala de aula.

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Corrupção: sua natureza e malefícios

“O poder tem a tendência a se corromper e o absoluto poder corrompe absolutamente.”

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Desilusão política (com comentários ao final)

A cada vez maior bancada dos desiludidos

José Eduardo Cardozo, Roberto Magalhães, Fernando Coruja, Ibsen Pinheiro. Por que um número grande de políticos tidos como sérios desiste da vida parlamentar?

Por Renata Camargo

Quando parlamentares com notório reconhecimento público não se sentem mais tentados a permanecer na política, é hora de repensar as estruturas políticas de uma sociedade. Um fenômeno crescente no país está fazendo com que deputados desistam de disputar as eleições deste ano. Esse fenômeno, tido com um desestímulo coletivo em relação à política, é causado por vários fatores, mas todos desembocam em insatisfações pessoais de parlamentares em relação às regras políticas vigentes.

Em entrevistas ao Congresso em Foco, três nomes de peso na política nacional — José Eduardo Cardozo (PT-SP), Roberto Magalhães (DEM-PE) e Fernando Coruja (PPS-SC) — apontaram os principais motivos que os levaram à aposentadoria parlamentar. Entre eles, estão as incoerentes regras eleitorais e a falta de vontade política para realizar uma concreta reforma política; a ditadura ilegítima das maiorias no Congresso, que impõe no Legislativo pretensões do Executivo; e os desgastes da imagem política na sociedade.

“Cinquenta por cento dos atuais parlamentares não vão voltar. Os outros 50% vão aos tribunais por causa do financiamento de campanha. Não concordo com o atual sistema eleitoral. Estou fora”, disse o deputado Ibsen Pinheiro (PMDB-RS), por meio de sua assessoria. O peemedebista também está entre os que já declararam que não irá se candidatar.

Até o dia 30 de junho, data limite para realização das convenções de partido que definem quem vai se candidatar para qual cargo, o número de parlamentares que devem deixar a política deve aumentar. O fenômeno da desilusão política tem atingido deputados e senadores de diversos partidos. Além dos já anunciados, outros três parlamentares sinalizam que também podem abrir mão da disputa: Ciro Gomes (PSB-CE), Nilson Mourão (PT-AC) e Nelson Proença (PPS).

“A quantidade de parlamentares que me disse que a minha posição tinha mexido com eles e que, se eles não tivessem hoje já se alinhando para as eleições, teriam tomado uma postura igual, foram muitos. Esse é um fenômeno que precisa ser analisado”, declarou o deputado José Eduardo Cardozo.

Reforma

O deputado petista afirma que, apesar de não disputar as eleições, continuará na política como dirigente do PT para defender que o partido “lute com unhas, garras e dentes por uma reforma política”. Exercendo seu segundo mandato como deputado federal, José Eduardo Cardozo aponta a falta de uma reforma política, os custos da campanha eleitoral, a dificuldade do Congresso em aprovar o financiamento público de campanha e a crença de que “todo o político é bandido” como os motivadores para sua saída.

“Quando você pensa que terá que enfrentar uma campanha caríssima, onde o que importa, muitas vezes, é o peso da máquina eleitoral e não da sua ideia e de seu programa, você se sente muito desestimulado. (…) Nosso sistema político gera uma relação estrutural promíscua entre doador e aquele que recebe e é a porta de entrada da corrupção. É uma máquina de moer boas intenções, que abate e desanima”, afirma o parlamentar.

A ditadura das maiorias no Congresso é apresentada também como uma das fortes motivações para abandonar a vida política legislativa. O líder do PPS, Fernando Coruja, afirma que existe no Brasil uma “capacidade muito grande dos Executivos no sentido de cooptar, não só no Congresso, mas também em assembléias legislativas e câmaras de vereadores”. O deputado Roberto Magalhães, que exerce a sua quarta legislatura, considera que há “uma ditadura de uma maioria ilegítima”.

“Uma coisa é o partido ter maioria e ganhar. Outra coisa é o presidente ou governador ganhar, não ter maioria, e, em função do poder que tem a dar, ele se transformar em majoritário dentro das câmaras e assembléias. (…) A maioria, seja convalidando o que vem do Planalto, ou convalidando em caso de acordo para votar a favor ou contra, vai legitimando o processo, fazendo com que a decisão pareça democrática, embora seja uma decisão de rolo compressor”, diz Magalhães.

Inútil

Questionamentos sobre o papel do Legislativo e o trabalho dos deputados também tem sido feito pelos parlamentares. Em seu terceiro mandato, Coruja afirma que está sentindo que o mandato de deputado “está um pouco inútil”. O parlamentar argumenta que a “representação parlamentar não é mais capaz de responder à sociedade” e que é “preciso achar outros mecanismos de representação”.

“Essa separação de poderes clássica e essa democracia representativa dá sinais de estar se esgotando. O poder político, de maneira geral, tem se tornado cada vez menos importante na sociedade. Deu-se muito espaço ao poder econômico, e as discussões dentro do Legislativo se resumem muito a discutir para onde vai o dinheiro. Aí, é uma discussão que começa a ter muitos interesses, e são interesses que não são populares”, resume Coruja.

A máxima de que “todo político é bandido” também é apresentada pelos deputados como um motivo de peso para abater os ânimos dos bons parlamentares. José Eduardo Cardozo considera essa generalização como “perversa”. Para Coruja, o político ser apresentado como “o grande vilão da sociedade” é um senso comum que enfraquece a capacidade de luta política.

“Claro que o que a população pensa tem uma referência de realidade. Mas, quando ela cai no senso comum, ela uniformiza e acaba fazendo com que a tua capacidade de luta enfraqueça. (…) Na medida em que você é político, o seu discurso vai ficando mais frágil. A sensação já carrega uma carga preconceituosa”, conclui Coruja.

(Original aqui.)

Comentários:

Por um lado, compreende-se a insatisfação dos parlamentares que resolvem desistir das eleições e da política de maneira geral. Aqueles que têm conhecimento um pouco maior ou mais “íntimo” sobre a estrutura estatal brasileira compreende perfeitamente a dificuldade que os parlamentares que podemos chamar de “bem-intencionados” têm no sentido de colocarem em prática aquilo que pretendem, pois os diversos “compromissos” previamente estabelecidos — que muitas vezes não foram estabelecidos pelos próprios parlamentares, mas pelos seus partidos — dificultam a concretização das “boas ações”. E há ainda aquela situação básica, que aflige muita gente: os “bem-intencionados” são poucos, e sempre existe o raciocínio de que a maioria, corrupta, sempre irá vencer. Como diriam, “uma andorinha só não faz verão”.

Por outro lado, pode-se questionar a saída dos “bem-intencionados”: já são poucos e ainda “pulam do barco”? Justamente nesse momento, neste ano — ano eleitoral — , em que bons políticos são necessários, estes desistem de concorrer, desistem de tentar fazer alguma mudança, alguma diferença, e deixam os espólios do estado nas mãos daqueles que, claramente, só buscam se eleger para obter benefícios pessoais.

A questão, contudo, apresenta-se como mais profunda, e acredito ser possível analisá-la relacionando política e cultura. Todos sabemos que a cultura brasileira (super)valoriza o “jeitinho”: a grande maioria do povo brasileiro tenta, sempre que possível, “se dar bem”. Não são poucos os casos em que ouço pessoas dizendo que “esperto é o Fulano, que roubou e não foi pego”, ou ainda “se eu estivesse no lugar dele faria a mesma coisa, talvez até pior”.

A reforma política é necessária? Sem dúvida. Alterações na estrutura político-partidária brasileira, e talvez até mesmo na forma de governo — defendo o parlamentarismo — são fundamentais para se ter um estado mais eficiente, que possa realizar melhor suas ações burocrático-administrativas na sociedade brasileira. Mas de nada adianta mudar as regras, mudar as leis, se não for mudada a mentalidade do povo brasileiro — começando, é claro, pelo fim do “jeitinho” e do “se dar bem a todo custo”. Exemplo: o indivíduo é parado em uma blitz no trânsito e sabe que está com o extintor vencido. O que ele irá fazer? 1) Irá reconhecer que está errado e aceitar a multa; 2) Irá tentar dar um “jeitinho” para ser liberado “só dessa vez”? Provavelmente, a segunda opção. E aí pergunto: se está disseminado na cultura brasileira a ideia do “jeitinho”, e se os parlamentares são oriundos dessa mesma cultura — porque me recuso a crer que eles simplesmente se materializam no Congresso Nacional e nas Assembleias Legislativas, o que impede o parlamentar de “dar um jeitinho” depois de eleito — só que, desta vez, com recursos públicos? É óbvio que se essa é a cultura do brasileiro, e se o parlamentar é brasileiro, ele tentará “dar um jeitinho” para tudo — e não apenas o parlamentar, mas também o partido político, o juiz, o membro da ONG, todos. Assim, enquanto a cultura brasileira não for profundamente alterada, será difícil (não impossível) alterar a estrutura política brasileira.

Egito – terra de contrastes

Publicado originalmente no site Perspectiva Política

Como os leitores devem saber, durante os meses de dezembro de 2009 e janeiro de 2010 estive viajando para fora do Brasil. Tive a possibilidade de visitar três países completamente diferentes do Brasil: Egito, Turquia e Ucrânia. Nas primeiras postagens de 2010 pretendo fazer um breve relato da viagem a esses países, apresentando não apenas elementos das esferas política, econômica e social, mas também aspectos mais “turísticos” propriamente ditos.

Na coluna de hoje falarei um pouco a respeito do Egito, minha primeira parada. Logicamente, o impacto acontece logo ao desembarcarmos: informações no aeroporto em árabe. Para aqueles que, como eu, não falam nem leem a língua, é um pouco complicado — e acredito ser um momento importante para sentirmos como um analfabeto se sente no Brasil. A “salvação” vem apenas por meio de alguns sinais básicos em inglês, que indicam a saída e o local para pegar a bagagem. Fora do aeroporto, nada feito: tudo em árabe.

Mas não é difícil se virar no país. Uma boa parcela da população egípcia entende um pouco de inglês, o que facilita a comunicação no que diz respeito a negócios. Porém, tirando isso tudo se complica: é relativamente difícil sustentar uma conversação sobre outro tema que não negócios. Por exemplo: a primeira cidade que visitei foi Aswan, no sul do Egito. Eu havia contratado previamente um táxi que me levaria do aeroporto ao hotel, mas eu não sabia se deveria pagar ao taxista ou ao hotel. Ao perguntar isso para o motorista, o mesmo nada compreendeu e não soube me responder: ele basicamente sabia em inglês o nome dos lugares por onde passávamos, mas não sabia dar nenhuma explicação aprofundada. E o mesmo ocorreu em várias outras oportunidades, inclusive no Cairo: se sairmos da esfera dos negócios (e por negócios quero dizer negociação de valores por um souvenir ou por um tour de camelo, por exemplo) e da esfera do turismo em geral, torna-se complicada a comunicação. Comer em um restaurante local é uma aventura, especialmente quando não há nada em inglês no menu, só em árabe… A comida, aliás, é um caso à parte: o Egito possui uma culinária bastante diferente da nossa, com muitos pratos deliciosos — e outros nem tantos. O que mais me agradou foi a possibilidade de comer o que chamamos de “pão sírio” com muito mais frequência do que aqui no Brasil.

Falar a respeito dos monumentos egípcios é desnecessário, creio eu. Estar em frente às três pirâmides mais famosas é algo simplesmente indescritível. Tive a mesma sensação que tive quando visitei campos de concentração e de extermínio nazistas na Alemanha e na Polônia no ano passado: ler sobre as pirâmides e ver fotos delas é uma coisa, estar à frente delas é outra coisa — e entrar nelas, uma experiência ainda mais indescritível. Ver a esfinge também é surpreendente, ainda que — como diz o guia “Lonely Planet” — ela se pareça com um astro de cinema: ao vivo é menor do que parece por fotos. Também foi surpreendente visitar a pirâmide de degraus em Saqqara e as pirâmides Vermelha e Inclinada em Dahshur, bem como visitar o Vale dos Reis em Luxor, o Templo de Karnak em Luxor ou o Templo de Abu Simbel. Isso sem falar em outro verdadeiro “monumento” egípcio, o Rio Nilo: navegar em suas águas por três dias e duas noites em uma felucca — barco sem motor no qual cabem até 10 pessoas — é uma experiência única para o visitante.

Mas nem só de monumentos antigos vive o Egito atual — e aí entramos em uma característica extremamente negativa dos egípcios, pelo menos para mim: tudo, absolutamente tudo, é avaliado em termos monetários. Algo — ou alguém, no caso de um turista — só é bom se puder ser monetariamente valorado. E tal valoração geralmente é absurda. Por exemplo: ao sair do Vale das Rainhas, em Luxor, um vendedor me ofereceu três miniaturas de plástico das pirâmides. Valor original pedido pelo vendedor: 500 libras egípcias (pela cotação da época, algo em torno de 160 reais). Disse que não e continuei andando até onde meu táxi estava me esperando — e essa caminhada não tinha mais do que uns 50 metros. Nesse trajeto, o preço caiu de 500 libras egípcias para 30 libras egípcias — preço que poderia ter caído ainda mais, tenho certeza.

Outra característica que considerei extremamente negativa foi o fato de que eles pedem gorjeta para tudo. Não importa o que for, se eles abrirem a boca para falar com você e você der atenção… Meu amigo, arrumarás uma bela dor de cabeça. E muitas vezes eles pedem dinheiro “do nada”. Por exemplo, fui ao banheiro no templo de Hórus, em Edfu, e perguntei para um funcionário do templo onde ficava o banheiro. Só por isso ele já pediu “money, money”. Falei que não ia dar e o funcionário ficou bastante irritado. Não queria me deixar entrar no banheiro, e só parou de me atrapalhar quando eu disse que ia chamar a polícia. Depois, no templo de Luxor, em cada “sala” do templo fica um segurança, e quando você entra sozinho na sala, lá vem o segurança querer mostrar uma “parte especial” da sala — como se você não fosse olhar tudo por si mesmo… E se você cair na conversa, já era, eles pedem mesmo dinheiro. O jeito é ser grosso ou não dar atenção e deixá-los falando sozinho. E mesmo assim eles insistem… Eu adotei a tática de não responder em inglês, só em português. Aí eles ficam meio perdidos, tentam uma segunda vez — alguns até falam um “hola” em espanhol — , mas acabam desistindo. É cansativo.

Acredito que uma visita ao Egito pode mudar a cabeça das pessoas, não apenas por ver todos aqueles monumentos — e ficar imaginando como foi possível, há tantos mil anos atrás, a construção de edificações nas quais não passa uma folha de papel entre as pedras — mas também para ver que nós, brasileiros, quando comparados ao egípcios em termos sócio-econômicos, somos ricos. Para ver que nós, em termos políticos, somos muito mais democráticos que eles. E para perceber o quanto o Islamismo é forte no Egito, apesar de este ser — creio eu — o país muçulmano mais “liberal” do Oriente Médio. Mas os aspectos sócio-econômicos, políticos e religiosos ficarão para a postagem da semana que vem.