Qual a lógica de 1% da população mundial ter a mesma força que os demais 99%?

A forma como os livros de história condicionam os regimes econômicos leva os jovens a enxergarem o mundo por uma ótica bilateral que é particularmente perigosa.

Ao final da programação letiva, alguns serão a favor do capitalismo, outros pensarão que o socialismo é mais justo. A partir desta base mais simples, as ideias vão se sofisticando, mas no fim das contas ainda divide as pessoas numa falsa premissa de esquerda e direita que não se adequa à complexidade do nosso mundo e os desafios que precisamos enfrentar.

Nesta semana, a associação não-governamental britânica Oxfam, com base em dados do Credit Suisse, fez um levantamento o qual apontou que 1% da população global detém a riqueza dos demais 99%. A organização reforçou que ao invés da economia trabalhar para a prosperidade de todos, as gerações futuras e o bem do planeta, o que se observa é que ela está servindo à minoria mais rica. Para se ter uma ideia, o relatório mostra que as 62 pessoas mais ricas do planeta concentram a mesma riqueza que metade da população mais pobre no mundo inteiro.

A pesquisa foi feita no sentido de pedir providências aos governos para a adoção de medidas que sejam capazes de diminuir a desigualdade econômica no mundo. Neste sentido, vale a pena pontuar alguns aspectos apontados em palestra feita pelo geógrafo David Harvey, professor da City University of New York em 2010, quando ele já propunha discussões mais críticas a respeito do modelo capitalista vigente.

O intuito do discurso não foi apontar as soluções, mas sim chamar atenção para os problemas existentes no sistema que precisam ser discutidos com mais profundidade. Entre eles, está justamente as contradições do acúmulo de riquezas. Como geógrafo, um dos aspectos que ele pontua é justamente um problema sistêmico do capitalismo de não resolver seus problemas, mas apenas deslocá-los geograficamente. Em 2008, os Estados Unidos sofreram os efeitos da bolha imobiliária no país, se ergueram posteriormente e o foco dos problemas com o crédito deslocou-se para a Grécia. Hoje, o mundo vive sob a sombra da possibilidade de uma nova bolha imobiliária na China, que com certeza causaria estragos de ordem econômica globalmente.

Outro ponto que ele discute é o princípio básico da geração de lucro, que acaba tendendo a deixar os acumuladores de riqueza cada vez mais gananciosos. O ponto é que, em tese, a mola básica do capitalismo consiste em contratar mão de obra, investir em matéria prima, elaborar um produto, vendê-lo e, com base no retorno, continuar investindo no negócio e retirar o lucro. Acontece que parte deste lucro, obviamente, é usado para expandir o empreendimento. A problematização surge neste momento: como fazer o dinheiro estar no lugar certo, no tempo certo e quantidade certa para que um negócio esteja sempre crescendo?

Esse paradigma impulsionou o capitalismo a criar inovações em termos de engenharia financeira para favorecer os empresários. A consequência é o aumento da ganância e o impulso para acumular cada vez mais. Quando pensamos neste problema, não cabe mais voltar o modelo didático das escolas, dividindo o mundo nos que são a favor e os que são contra o capitalismo.

O primeiro passo seria considerar o IDH (índice de Desenvolvimento Humano) dos países no mesmo patamar de relevância que PIB (Produto Interno Bruto) que eles produzem. Já reparou que costumamos avaliar a qualidade de cada economia pelo PIB anual, mas raramente nos questionamos sobre o IDH daquele local? Em 2014, por exemplo, a China teve um PIB de 7,4%, mas esteve em 91º lugar no ranking mundial de IDH, doze posições abaixo do Brasil. Aliás, o pais asiático é frequentemente criticado por permitir regimes de trabalho desumanos.

O fato é que estamos diante de um sistema que constantemente entra em colapso e que cada vez mais favorece uma quantidade menor de pessoas. Se queremos um mundo mais próspero e equilibrado para todos, é tempo de enxergarmos o capitalismo com um olhar mais crítico e entender de que forma podemos pensar em uma economia capaz de diminuir as diferenças apontadas no levantamento da Oxfam.

(Original aqui.)

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