Investimentos na geladeira

O governo trata a economia a espasmos. Enquanto o impostômetro marcava R$ 1 trilhão e 350 bilhões tomados em 2011, o Ministério da Fazenda anunciava retirada de R$ 2,7 bilhões em, por exemplo, IPI de geladeira.

Como Guido Mantega e sua chefe adoram quebrar recordes de arrecadação, o incentivo não guarda qualquer semelhança com desonerar.

A meta é o consumidor ampliar o número de carnês – na crise, em vez de incentivos para guardar, incita-se a jogar o colchão fora e comprar uma cama box em dez prestações. Foi uma tentativa de vacina, pois o viés embicou na direção do buraco.

No fim de semana, a CNI divulgou a pesquisa “Investimentos na Indústria”, com as tendências de baixa. Entre os dados preocupantes, o levantamento aponta que 75,7% das empresas entendem que o principal risco ao investimento futuro é a incerteza econômica. Eram 59,1% os preocupados em 2010.

Cansada das síncopes, a classe produtora passou ao largo de sapitucas como o “Brasil Maior” e as derrubadas temporárias de taxas.

O IBGE também começou dezembro com notícias ruins. A produção industrial caiu 2,2% em outubro passado em comparação com o mesmo mês de 2010 – 10% negativos nos bens duráveis, portanto, debalde a “carneficina”. De setembro para cá, aponta o instituto, a derrocada foi geral.

Dos 27 ramos industriais analisados, 20 fecharam no vermelho. O descalabro é maior se o paradigma for março: queda de 4,7%.

Ouvido pela colunista Míriam Leitão, o economista Felipe Salto deu o diagnóstico: de janeiro a outubro, as despesas do governo cresceram 9,9% ou 3% sem a inflação. Não falta nota nos cofres porque, nos primeiros dez meses, o arrocho fiscal aumentou a arrecadação em 13,1%.

Tudo que fisga de quem trabalha, o governo injeta na manutenção da máquina: a queima de recursos com a companheirada subiu 9,3% e os investimentos, que já eram mínimos, caíram 3,7%, ainda assim somados os restos a pagar.

Do réveillon a Finados, foram R$ 145 bilhões para a turma do crachá e 34,7 bilhões em investimentos. Leitão conclui que o “governo registrou até outubro déficit nominal de 2,36% do PIB contando o que paga de juros para rolar a própria dívida, com R$ 79 bi no vermelho”.

Outro economista entrevistado, Rogério Werneck, fez as contas: a carga tributária inchou e deve fechar o ano acima de 36,5%, contra os já extorsivos 35,13% de 2010.

Ou seja, os empreendedores temem a crise, a desindustrialização se consolida e Dilma Rousseff mantém o receituário: cura mais gastos com mais tributos – aliás, todos eles inflaram em 2011, alguns batendo 20% acrescidos aos percentuais anteriores.

Assim, não adianta baratear o freezer se o dinheiro para enchê-lo está comprometido com o endividamento: seis em cada dez famílias mantêm a corda no pescoço, segundo pesquisa da Confederação Nacional do Comércio. Tanto que a gratificação natalina da maioria será usada para quitar contas.

O perigo é que, sem o 13º, pode ser convencida a trocar a linha branca de casa pelo vermelho do crédito. E, literalmente, entrar numa fria.

Demóstenes Torres é procurador de Justiça e senador (DEM/GO)

(Original aqui.)

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