Sonho tunisiano

Do momento em que um jovem vendedor ambulante de frutas e verduras se imolou em praça pública no interior da Tunísia, em protesto contra os desmandos das autoridades, até hoje, um ano depois, quando seu gesto continua desencadeando manifestações populares na região que já derrubaram nada menos que três ditadores, e levaram às urnas, pela primeira vez em eleições democráticas, vários países, houve uma “reinvenção da liberdade”, valor central da condição do homem moderno.

A definição é da escritora Hélé Béji, uma das principais intelectuais da Tunísia, fundadora do Colégio Internacional de Tunis, que participa a partir de hoje da conferência da Academia da Latinidade que vai debater justamente as consequências, para a região e para a democracia, da chamada Primavera Árabe.

Criada para discutir a questão do multiculturalismo num mundo dominado pela hegemonia dos EUA, mesmo antes dos atentados do 11 de Setembro, a Academia da Latinidade reúne intelectuais, na maioria de países de origem latina, e se propõe a intermediar as relações do Ocidente com o Oriente, tendo como base o fortalecimento da democracia.

Seu secretário-geral, o filósofo e sociólogo brasileiro Candido Mendes, diz que esta XXIV Conferência, intitulada “Os novos imaginários democráticos”, pretende discutir as muitas interrogações que estão postas sobre a afirmação da identidade coletiva dos que desencadearam a Primavera Árabe, em meio às tensões da guerra de religões, da queda de ditaduras e do fundamentalismo renovado na região mediterrânea.

O que se pretende debater, segundo Candido Mendes, é se a democracia tornou-se uma ideia universal possível, no encontro de um diálogo num mundo marcado pela indiferença, pelo mal-entendido entre a laicidade e o mundo islâmico, e se é possível a compreensão efetiva do pluralismo étnico ou do multiculturalismo nas construções nacionais que se seguirão às mudanças.

A escritora tunisiana parece não ter dúvidas. Para ela, “assistimos, pela primeira vez na História contemporânea, e com ressonância mundial e não somente regional”, à reinvenção da liberdade, e “a partir de agora não há mais fronteiras morais ou políticas” entre o mundo livre, que se identificava com o Ocidente, e os outros mundos.

Candido Mendes ressalta que, com o fim da antiga homogeneidade de um mundo dividido entre centros e periferias, será preciso enfrentar as novas contradições entre afirmação identitária, autodeterminação e prioridade democrática.

Já Hélé, entusiasmada com o momento, fala da “aceleração da História”, quando “a ação, o gesto, a rebelião, a palavra foram mais rápidos que o pensamento”. Ela considera que estamos diante de uma “ampliação infinita, mundial do que conhecíamos como mundo livre”.

A partir de agora, para Hélé, os povos da Primavera Árabe são livres para imaginar a liberdade, e não apenas recebê-la dentro de um modelo predefinido pelo Ocidente.

Ela vê o momento atual como uma “segunda independência” para os países que haviam trocado a dominação exterior do colonialismo por uma dominação interior, das ditaduras.

E compara os movimentos revolucionários que ocorrem nos países da Primavera Árabe à Renascença europeia dos séculos XV e XVI.

A revolução tunisiana, para Hélé, deu à palavra “democracia” uma acepção mais ampla que toca todas as esferas da existência social e humana nas sociedades afetadas, e não se limita apenas à ruptura de um sistema político arcaico ou a uma forma de governo.

Não se trata, diz ela, de somente construir um novo sistema político ou estabelecer regras honestas e justas de representação política, mas da possibilidade única de criar novos modos de relações humanas que não sejam baseadas em hierarquias antigas ou em comunidades envelhecidas ou ainda em medos ancestrais ou proteções patriarcais.

Será preciso, adverte, um trabalho individual de autorregulação, de autodisciplina, pois com o desaparecimento dos antigos sistemas coercitivos também desapareceram as referências históricas.

Hélé pensa que, dentro do novo ambiente democrático, haverá necessidade de uma nova autoridade, que não pode ser religiosa.

“Nossas novas democracias estão à procura de sua própria autoridade, de seus próprios mitos, de seus próprios símbolos, de suas próprias tradições, seus próprios códigos, seu próprio discurso, seus próprios fundamentos ainda não formulados, em nome de uma nova cultura”, divaga Hélé.

As democracias modernas estão enfraquecidas pelo excesso de individualismo e pela ganância financeira, na visão de Hélé Béji, e estão longe de serem perfeitas, especialmente no campo da justiça social.

Ela considera que a conferência da Academia da Latinidade pode explorar, nos diversos campos das ciências humanas, as consequências do que acredita ser um novo ciclo histórico da democracia, que, “através da extraordinária revolução do sul do Mediterrâneo, joga novas luzes sobre a crise das democracias ocidentais”.

A conferência se debruçará também, segundo Candido Mendes, sobre o impacto dessas mudanças nos caminhos clássicos do mundo europeu, envolto na crise da esquerda, do emprego e, sobretudo, das novas demandas por avanços nos direitos humanos e de cidadania, num espaço político novo e complexo.

Mais pragmático que sua colega Hélé, o secretário-geral da academia ressalta a importância, nos países subdesenvolvidos que fazem parte desse processo, das políticas públicas para reduzir a marginalidade social, distribuir melhor a renda e acelerar os resultados.

(Original aqui.)

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