Os dois lados da mesma moeda

27 11 2009

Sobre a notícia abaixo:

Por um lado, haverá aqueles que dirão que o Brasil está jogando dinheiro fora, que o Brasil é um país em desenvolvimento e precisa usar o dinheiro em questões mais produtivas — como educação, saúde, habitação, transporte… –, e haverá até mesmo aqueles que dirão que o Brasil está se tornando um país imperialista por estar fazendo parte do “clube de exploradores” do qual o FMI é composto.

Por outro, haverá aqueles que dirão que tal empréstimo nada mais é do que o reflexo do novo patamar internacional alcançado pelo Brasil, e que se o Brasil quiser ser “grande” deve, sim, participar do “clube de amigos” internacional — da mesma forma que o país vem aumentando sua influência em outros fóruns internacionais, como o G20.

Qual das duas opiniões é a correta? Acredito que ambas, mas escolho a segunda. No âmbito internacional, “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”, como diria o grande filósofo Ben Parker, e se o Brasil quer efetivamente exercer algum papel internacional, terá de arcar com os custos. Não há apenas bônus, mas também ônus, e este é um deles.

Por outro lado, acho que, ao entrar no “clube”, o Brasil poderia tentar, lentamente, alterar a estrutura do sistema. Talvez isso soe utópico, mas acredito que valeria a pena o Brasil ter uma postura mais “humanista” dentro do FMI, tentando fazer mudanças vinculadas à ética por meio do exemplo. É claro que não mudaria tudo de uma vez, e é bem provável que se tornasse um voto vencido em várias situações. Mas é a chance que o país tem de se mostrar como alguém a ser seguido: já que não há como mudar pela força — física ou econômica –, que mude pelo exemplo, como lentamente a Europa faz. Afinal de contas, mudanças são mais que necessárias nesse nosso mundo — em termos políticos, econômicos, sociais e, principalmente, éticos.





O Brasil e o FMI

25 11 2009

(Obs.: volto depois para comentar.)

Brasil emprestará até US$ 14 bilhões ao FMI, diz Mantega
Proposta inicial era de emprestar até US$ 10 bilhões.
Com mudança, Brics terão poder de veto em linha de crédito.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, anunciou nesta quarta-feira (25), que o governo brasileiro poderá emprestar até US$ 14 bilhões ao Fundo Monetário Internacional (FMI). A proposta inicial era de emprestar até US$ 10 bilhões ao Fundo.

Com a mudança, o ministro informou que a participação dos BRICs, ou seja, o grupo de países formados pelo Brasil, Rússia, Índia e China poderá ter até 15% da linha de crédito do FMI conhecida como NEB (New Arrangement to Borrow). Com essa participação, estes países terão direito a veto na linha de crédito.

O ministro Mantega informou ainda que o possível empréstimo não implicará em queda das reservas internacionais brasilerias, atualmente acima de US$ 235 bilhões. Para emprestar os valores ao FMI, o Brasil comprará os “Direitos Especiais de Saques”, que passarão a compor as reservas cambiais.

“O Brasil está aumentando de US$ 10 bilhões para US$ 14 bilhões os recursos aportados. Fica como reserva no país e será aportado na medida em que for demandado [pelo FMI]. É como se fosse um cheque especial. Está a disposição. É um fato relevante para o Brasil”, disse Mantega.

(Original aqui.)





Sobre Ahmadinejad

24 11 2009

Fiquei de voltar aqui ainda ontem, mas não deu. O dia foi péssimo, e culminou com o “bolo” que o presidente Ahmadinejad deu em mais de 500 estudantes no IESB…

Como mudar Ahmadinejad? Pretendo aqui apresentar rapidamente duas formas distintas, tentando contribuir para o surgimento de uma visão mais integradora do que desintegradora a respeito das ações junto ao presidente do Irã.

A primeira forma diz respeito ao elemento democrático: não há democracia se não houver vozes falando. Talvez possa parecer duro isso, mas acredito ser necessário “deixar o homem falar”. Concordo com a frase que classicamente associada a Voltaire – ainda que não tenha sido ele a pronunciá-la: “posso não concordar com nada do que dizes, mas defenderei até a morte seu direito de dizer o que pensas”. Meu posicionamento vem de uma questão de princípios, e que para mim me parece muito simples: se o impedimos de falar, estaremos sendo tão autoritários quanto ele é com seu povo. Virão aqueles que dirão “mas não podemos deixar que ele fale que o Holocausto não aconteceu”, ou ainda “como podemos dar voz a ideias tão repugnantes?”. É verdade, são ideias absurdas, esdrúxulas, inconsequentes, mas são ideias, e todos precisam falar. Se vamos “vencê-lo”, que seja pela nossa (= ocidental) moral: que nossos princípios se apresentem como mais sólidos, mais fortes do que os dele, e que convençamos pelo diálogo, não pela imposição, pois com a imposição apenas nos igualaríamos a ele.

A segunda forma diz respeito ao elemento ético, e está diretamente relacionada à ideia de democracia. Quando defendo a possibilidade de uso da voz por parte de Ahmadinejad, não quero dizer que concordo com o que ele faz: o estado deve ser ético. Já dizia Max Weber que uma das características do estado moderno é se fundamentar naquilo que ele chamou de “ética da responsabilidade”, ou seja, na ideia de que não basta a tomada de decisão; é fundamental se considerar os resultados de tal tomada de decisão. Mais que isso: no mundo em que vivemos, toda tomada de decisão por parte dos estados deve levar em consideração o princípio da dignidade humana, tão bem exposto por Hannah Arendt, dentre outros pensadores contemporâneos. Assim retorno à ideia apresentada no parágrafo anterior: a “vitória” deve vir não por meio da força física, por meio da força bruta, mas sim por meio da força moral e da força ética que apenas um discurso verdadeiramente democrático e fundamentado no princípio universal da dignidade da pessoa humana pode ter.

É claro que o raciocínio desenvolvido aqui é apenas inicial: escrevo assim neste momento devido ao avançado da hora, com o consequente sono. Mas acredito que, em linhas gerais, estes são os princípios que deveriam ser utilizados pelos países no trato com o Irã: mostrar o que é a democracia e mostrar que a “nossa” democracia, ou seja, a democracia ocidental, não se fundamenta em imposições, não se fundamenta em manipulações (espera-se), não se fundamenta na força bruta: é necessário deixar claro que, acima de qualquer vontade individual canalizada para o estado está a preservação da vida do indivíduo, de sua integridade – tanto física quanto intelectual. É pelo exemplo que devemos tentar conquistar Ahmadinejad. É isto que garantirá a “vitória” sobre aqueles que não querem seguir o caminho da democracia e da convivência pacífica entre os povos.





Lula recebe líder do Irã em visita cercada de polêmica

23 11 2009

Obs.: volto mais tarde para comentar a notícia.

O presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, faz nesta segunda-feira uma visita oficial ao Brasil cercada de polêmica e expectativa.

Neste domingo, antes mesmo da chegada de Ahmadinejad ao país, entidades ligadas à comunidade judaica, grupos religiosos, de defesa dos direitos humanos, de homossexuais e outras organizações realizaram protestos contra a visita do líder iraniano.

A vinda de Ahmadinejad ao Brasil também provocou críticas em outros países. Congressistas americanos chegaram a afirmar que receber Ahmadinejad é um erro.

No entanto, o governo brasileiro defende a visita do líder iraniano, que ocorre menos de duas semanas depois da vinda do presidente de Israel, Shimon Peres, e poucos dias após a visita do presidente palestino, Mahmoud Abbas.

Às vésperas de assumir uma vaga rotativa no Conselho de Segurança da ONU e com a pretensão de conquistar um assento permanente, o Brasil busca com as visitas dos líderes do Oriente Médio desempenhar um papel mais relevante nas grandes discussões internacionais.

Os críticos da visita de Ahmadinejad questionam o fato de o Brasil receber um líder tão polêmico com honras de chefe de Estado e temem que o gesto possa deixar a impressão de que o Brasil concorda com as posições do presidente iraniano.

O governo brasileiro, porém, afirma que a política externa brasileira tem uma tradição de não intervir em assuntos internos de outros países, que isolar o Irã seria menos produtivo e que o melhor caminho é o diálogo.

Durante a passagem do presidente de Israel por Brasília, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que não se constrói a paz necessária no Oriente Médio sem conversar com “todas as forças políticas e religiosas, que querem paz e que se opõem à paz”.

“Ou você transforma o processo de negociação em um clube de amigos em que todos estão concordando com uma coisa e os que discordam ficam de fora, portanto a paz não será possível nunca”, afirmou o presidente na ocasião.

Programa nuclear

Ahmadinejad ficará apenas um dia no Brasil. Depois, passará pela Venezuela e pela Bolívia, seus aliados na América Latina.

A visita do líder iraniano ocorre em meio ao crescente isolamento do país, especialmente devido a seu programa de enriquecimento de urânio. Estados Unidos e outros países temem que o Irã planeje desenvolver armas nucleares secretamente e pressionam o governo a interromper o enriquecimento de urânio.

A recusa de Teerã em ceder às pressões tem provocado sanções da ONU contra o país. O governo iraniano nega as alegações e afirma que seu programa nuclear é pacífico, com o objetivo de geração de energia.

A expectativa é de que no encontro desta segunda-feira o presidente Lula defenda o uso pacífico de energia nuclear e afirme que o Irã tem direitos e deveres a cumprir.

Antes de embarcar, Ahmadinejad divulgou uma carta em que pede que o Brasil fique “ao lado do povo iraniano” em questões nucleares.

O presidente iraniano é conhecido por suas declarações polêmicas. Ahmadinejad já negou o Holocausto mais de uma vez e prega a destruição do Estado de Israel.

O governo israelense considera o líder iraniano um inimigo e acusa Teerã de fornecer financiamento e treinamento a grupos como o Hezbollah, no Líbano, e o Hamas, na Faixa de Gaza, contribuindo para a instabilidade no Oriente Médio.

Agenda

A visita de Ahmadinejad ao Brasil estava inicialmente prevista para maio, mas foi adiada na última hora, pouco antes das eleições no Irã.

No pleito, realizado em junho, Ahmadinejad foi reeleito em uma votação marcada por acusações de fraude. Na época, o presidente Lula foi um dos primeiros líderes a reconhecer a vitória de Ahmadinejad.

Os protestos que se seguiram à divulgação dos resultados da eleição foram os maiores realizados no Irã desde a Revolução Islâmica, em 1979. A violenta repressão aos protestos deixou dezenas de mortos e centenas de pessoas presas e foi criticada por diversos países.

Ahmadinejad chega a Brasília acompanhado de uma comitiva de quase 300 pessoas, entre elas cerca de 150 empresários de diversos setores. Durante sua visita, serão assinados 23 acordos bilaterais.

Um dos objetivos da viagem é reforçar as ligações comerciais entre os dois países. No ano passado, o Brasil exportou US$ 1,13 bilhão para o Irã e importou US$ 14,78 milhões.

Além do encontro com Lula, o presidente iraniano também será recebido pelos presidentes do Senado, José Sarney (PMDB-AP), e da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), e por representantes do Grupo de Amizade Parlamentar Brasil – Irã. Está previsto ainda discurso no Instituto de Educação Superior Brasília, segundo a embaixada iraniana.

Ahmadinejad é o primeiro presidente iraniano a visitar o Brasil. Este será o terceiro encontro entre o presidente iraniano e Lula. Os dois líderes já haviam se encontrado no Equador e a segunda nos Estados Unidos.

O presidente Lula deve visitar o Irã no primeiro semestre de 2010.

(Original aqui.)





Concretização do apagão de ideias

11 11 2009

Hoje mais cedo escrevi a postagem abaixo, falando sobre o apagão de ideias na política. E tal apagão de ideias continua. Senão, vejamos:

  1. No twitter, a maior preocupação daqueles que são contrários ao atual governo estão fazendo questão de dizer que Dilma disse, há duas semanas, que não haveria apagão. Ora qualquer pessoa com suficiente bom senso sabe que ela estava usando a palavra “apagão” no sentido de racionamento, como o havido em 2001-02, e não no sentido do apagão de ontem à noite.
  2. Por que aqueles que querem usar o apagão de ontem como argumento para criticar o governo não falam nada dos apagões — e não racionamentos — que também acontecem em outros países? Já se esqueceram do apagão nos EUA-Canadá logo após o 11 de setembro? Ou na Itália? Na França? Isto para ficar apenas com países desenvolvidos, sem falar de apagão na Venezuela ou na Argentina.

Em suma: o apagão de ideias faz com que apenas críticas — eleitoreiras — sejam feitas. Uma pena.





Apagão de ideias

11 11 2009

A essa altura, todos já sabem a respeito do apagão ocorrido ontem à noite, especialmente na região sudeste do país. No momento em que escrevo, as informações dizem que a causa do apagão não foi na geração, e sim na transmissão da energia a partir de Itaipu.

Independentemente das causas do apagão elétrico, vemos atualmente no país um imenso apagão de ideias na esfera política. Sigo alguns políticos no twitter, tanto os de “direita” quanto os de “esquerda” — melhor dizer, tanto os “pró” quanto os “contra” o presidente Lula –, e nas últimas semanas (ou seriam meses?) não há absolutamente nenhuma discussão a respeito de propostas para o futuro do país. Não que eu espere arroubos de genialidade, de originalidade e de preocupação com o público dos políticos que temos; não que eu seja ingênuo de achar que políticos (em qualquer época, de qualquer lado do espectro político) se preocupem realmente com os anseios populares. Mas parece-me que nossos políticos não conseguem perder a mania de querer cavar cada vez mais para baixo, mesmo já tendo chegado ao fundo do poço.

A aridez intelectual pode ser resumida em três campos. O primeiro é aquele dos políticos pró-Lula, que não se cansam de dizer que o governo atual é lindo, maravilhoso, perfeito, insubstituível. O mais característico desses é Ricardo Berzoini: todos os dias suas mensagens no twitter apresentam comparações entre o governo FHC e o governo Lula, logicamente dizendo que o último sempre é melhor que o primeiro.

O segundo campo é oposto ao primeiro, composto por políticos que só sabem criticar o governo atual. Insistem em dizer que tudo que o governo Lula faz é consequência das condições deixadas por FHC, além de ser (quase) tudo fundamentado em manipulações ideológico-eleitoreiras — ou seja, não são realizações reais, e sim fantasiosas.

O terceiro e último campo é composto por aqueles políticos que tentam se situar acima dos dois campos anteriores, mas são tão áridos e superficiais quanto ambos. Até apresentam ideias interessantes, como a de que qualquer governo deve se preocupar com a educação e com o meio ambiente, mas ficam apenas no mundo das ideias, não apresentando efetivamente propostas que possam colocar tais ideias em prática.

Repito: devido à minha formação acadêmica, não sou ingênuo em achar que políticos não se utilizam de recursos demagógicos para atingir seu objetivo — votos. Não sou ingênuo em achar que políticos pensam no povo. Mas, ainda como cientista político, vejo como extremamente perigoso o caminho tomado especialmente pelos dois primeiros campos — que são majoritários –, pois a exacerbação de argumentos “pró” e “contra” qualquer tema levam a extremismos e à intolerância em relação às ideias do “outro”. E, como sabemos, um dos elementos fundamentais da democracia é justamente a tolerância e a aceitação das ideias do outro. Além disso, a política brasileira gira atualmente ao redor de uma única pessoa — Lula — e não em torno de ideias. Quando a política se torna plebiscitária e personalizada, podemos ter uma única certeza: alguma coisa está muito errada.





Sobre o Muro de Berlim (1)

9 11 2009

O leitor que visitou meu blog na última semana viu que coloquei aqui uma série de reportagens de outros sites a respeito da queda do Muro de Berlim, que hoje completa 20 anos. O objetivo foi o de mostra um pouco de um dos eventos mais importantes do século XX e que continua a influenciar o nosso século atual, ainda que muitos não se deem conta disso.

Pouco falarei aqui a respeito da história do Muro: todos já devem até mesmo estar cansados de ouvir como e por que o Muro foi construído, pois afinal de contas falou-se muito sobre o tema nos últimos 5 dias devido à iminente comemoração. Eu mesmo já havia escrito sobre o tema certo tempo atrás (ver aqui), e meu objetivo aqui é outro: não falar sobre o Muro, mas sobre as consequências que o fim do Muro nos trouxe.

A primeira reação foi de vitória. Os ocidentais, simbolizados pelos Estados Unidos, mostraram-se como vitoriosos ao mundo por terem derrotado seu inimigo da Guerra Fria – o “comunismo” da União Soviética. Eram vitoriosos porque a mudança foi realizada “sem nenhum tiro”, como tem enfatizado bastante a mídia brasileira nesses últimos dias. E eram ainda mais vitoriosos porque a mudança foi realizada pelo “povo”, pela “vontade do povo”, e o “povo”, nas democracias liberais, é uma entidade metafísica que representa “tudo de bom” – afinal de contas, quem quer ser contra o “povo”? O “povo” venceu – e assim chegava ao fim o Muro de Berlim.

A segunda reação foi de euforia. Todos devem ter visto na TV, nos últimos dias, as diversas imagens de alemães orientais chorando e sorrindo por encontrarem seus pares ocidentais. Acreditava-se, à época, que todos os erros realizados nos 40 anos de comunismo na Alemanha Oriental seriam revertidos, corrigidos, e todos “viveriam felizes para sempre” – e isto, é claro, em um curto período de tempo. Afinal de contas, agora que o Muro caíra, agora que o governo da Alemanha Oriental caíra, era questão de tempo viver com toda a opulência e fartura que havia na Alemanha Ocidental.

A terceira reação, extremamente vinculada à primeira, foi de satisfação intelectual. Diversos círculos acadêmicos decretaram “o fim da história” – sendo este o título do artigo acadêmico mais importante da época, escrito por Francis Fukuyama. A derrocada do Muro de Berlim representava o fim da história no sentido de que não haveria mais o que fazer: bastava abraçar o capitalismo como sistema econômico e a democracia liberal como sistema político que tudo estaria bem. Afinal de contas, a única opção ao binômio “capitalismo-democracia liberal” – o comunismo totalitário, na visão de tais autores – não mais existia na prática (afinal de contas, China, Cuba, Vietnã e Coreia do Norte não existiam naquele momento). Ora, se no mundo bipolar de então – no qual não havia meio termo, e ou se era capitalista ou comunista – uma das opções deixara de existir, sobreviveria apenas a outra opção, destino natural de todos os países ao longo de suas histórias.

Mas aí veio a quarta reação: a decepção. A decepção, em primeiro lugar, dos alemães orientais, que viram a promessa do “paraíso” escoar pelas mãos como água: mudanças ocorreram, é claro, mas não foram capazes de satisfazer os anseios da população. Os níveis sociais da Alemanha Oriental ainda são inferiores aos da Alemanha Ocidental: a título de exemplo, o desemprego caiu de 19% para 11% – enquanto que, na área da Alemanha Ocidental, o desemprego é de 7%.

Veio também a decepção intelectual. O “fim da história” prometia uma era de ouro para o neoliberalismo, para o capitalismo e para a democracia, com a respectiva “facilidade de análise” da sociedade. E a era de ouro não veio. É certo que o capitalismo obteve grande desenvolvimento, especialmente no início do século XXI, mas tal desenvolvimento não foi capaz de transformar o capitalismo em si em um sistema que tivesse grande legitimidade – parece que ele é aceito muito mais com aquela ideia de “fazer o que se não há outra opção?” do que com verdadeiro entusiasmo.

Outra decepção diz respeito à segurança do mundo. Com o fim do comunismo e do “Império do Mal”, como diria Ronald Reagan, o mundo seria mais seguro – afinal de contas, não haveria mais a ameaça da Guerra Fria, não mais haveria o perigo do Ocidente ser atacado a qualquer momento pelos “comedores de criancinhas”, não haveria mais o medo de uma ogiva nuclear cair sobre as cabeças ocidentais. Mas o que aconteceu no mundo? Trocou-se um inimigo “certo” – a União Soviética, o Pacto de Varsóvia – por outro muito mais difuso – o terrorismo. Trocou-se um inimigo que funcionava em termos militares tradicionais, com forças armadas claramente estabelecidas, por outro que trabalha na forma de guerrilha, se incrustando silenciosamente nas diversas camadas de todas as sociedades e que traz muito mais medo e muito mais consequências negativas para a população. Não é à toa que vários filmes americanos de espionagem, de forma irônica, em um momento ou outro trazem a frase “ah, como eu sinto falta da Guerra Fria”…

Em suma, a queda do Muro de Berlim marcou o fim de uma era e o início de outra – que não necessariamente é melhor, mas com certeza é muito mais complicada de ser analisada em todos os sentidos: político, econômico, social e ideológico, dentre outros.





Notícias de Berlim (2)

8 11 2009

Queda do Muro de Berlim, símbolo de uma Europa dividida, completa 20 anos

O Muro de Berlim, uma consequência da Guerra Fria e cuja queda completa 20 anos nesta segunda-feira, virou símbolo da divisão da Alemanha e, por extensão, da Europa.

Na noite de 12 para 13 de agosto de 1961, Berlim foi dividida ao meio por ordem das autoridades da República Democrática da Alemanha (RDA, Alemanha Oriental), que mandaram instalar uma cerca com arames para partir fisicamente a cidade.

O muro, classificado como “da vergonha” pelo Ocidente e como “muralha de proteção contra o antifascismo” pelo leste, permaneceu de pé por 28 anos, dois meses e 27 dias.

Em sua construção, decidida na reunião do Pacto de Varsóvia (Moscou, junho de 1961) por iniciativa da então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), trabalharam cerca de 40.000 soldados e policiais da RDA.

Com um pouco mais de 155 quilômetros de extensão, a barreira de concreto cruzava Berlim e rodeava a parte ocidental, transformando-a em uma “ilha”.

A origem da muralha está na divisão da Alemanha, decidida pelas potências vencedoras (Estados Unidos, Reino Unido, França e URSS) da Segunda Guerra Mundial e que, em 1949, acabou gerando dois países: a República Federal da Alemanha (Alemanha Ocidental) e a RDA.

Por conta do muro, Berlim tornou-se símbolo da Europa repartida em dois blocos após a explosão da chamada Guerra Fria, travada por EUA e seus aliados ocidentais, de um lado, e pela URSS e os países sob sua influência ao leste da Áustria, do outro.

No entanto, para muitos a iniciativa foi um fracasso. Segundo a Promotoria de Berlim, pelo menos 276 pessoas morreram e mais de 3.000 foram presas tentando cruzar a barreira para fugir do comunismo do lado leste.

A primeira vítima foi Günter Litfin, que tinha 24 anos quando perdeu a vida, em 24 de agosto de 1961. Já a última foi Chris Gueffroy, morto a tiros em 5 de fevereiro de 1989, aos 20 anos.

De 9 para 10 de novembro de 1989, a população da Berlim Ocidental e da Berlim Oriental foi surpreendida pela queda do muro, depois de meses de protestos e da reforma política (“perestroika”) promovida pelo então líder soviético, Mikhail Gorbachov.

Em 18 de outubro daquele ano, o presidente da RDA, Erich Honecker, considerado um representante da “velha-guarda” do Partido Socialista Unificado (SED), foi substituído pelo reformista Egon Krenz.

O novo governante propôs a aprovação da abertura da fronteira. E, na tarde do dia 9, o porta-voz do Politburo (comitê central do Partido Comunista da extinta URSS), Günther Schabovski, anunciou a emissão imediata dos vistos de saída.

Minutos depois, um jornalista de uma agência de notícias informava que a Alemanha Oriental estava abrindo suas fronteiras.

Formalmente, o muro caiu às 22h (hora local), quando se abriu o primeiro posto fronteiriço, em Bornholmerstrasse.

No entanto, o fato pegou os políticos desprevenidos. O chanceler da Alemanha Ocidental, Helmut Kohl, estava em Varsóvia (Polônia) em visita oficial e só voltou a Berlim no dia seguinte.

Depois da queda, o debate, então, passou a ser sobre a reunificação. Os gritos de “Somos o povo”, com o qual os berlinenses se manifestavam a favor da queda do muro 1989, foram trocados pelos de “Somos um povo”.

Em 1º de julho de 1990, teve início a união econômica, monetária e social. Em 3 de outubro, entrou em vigor do Tratado de Unificação da Alemanha Ocidental e da RDA. As primeiras eleições aconteceram em 2 de dezembro do mesmo ano.

Com a reunificação, Berlim recuperou o título de capital, mudança aprovada pelo Parlamento em junho de 1991, e, em agosto de 1999, o Governo federal se instalou oficialmente na cidade.

No décimo aniversário da queda, o chanceler Kohl afirmou que todo o processo não teria sido possível sem o apoio de EUA e da URSS, sobretudo do então presidente americano, George Bush, e de Gorbachov.

Em 1998, Kohl, o artífice da reunificação, foi substituído no Governo pelo social-democrata Gerhard Schroeder, encarregado de transferir o Executivo para Berlim. Anos depois, em 2005, os democratas-cristãos voltaram à Chancelaria com Angela Merkel, que cresceu no lado leste.

Com todas estas mudanças, a Alemanha transforma sua imagem por meio de uma Berlim renovada, com grande atividade e que almeja se tornar uma grande capital europeia e, segundo seu prefeito, Klaus Wowereit, também busca virar o ponto de encontro entre o leste e o oeste do continente.

O que mais chama a atenção nesta nova Berlim é a arquitetura moderna, que pode ser muito bem exemplificada pela cúpula de vidro do Reichstag (Parlamento), uma obra do arquiteto britânico Norman Foster.

Outro lugar emblemático é a Praça de Potsdam, no lado leste. De um mero descampado, o espaço passou a polo empresarial e à referência em arquitetura, já que passou a abrigar vários prédios projetados por profissionais de renome.

Da velha Berlim, restam 1,3 quilômetro de muro, trecho que recebeu o nome de East Side Gallery após ter sido grafitado por dezenas de artistas de todo o mundo. As autoridades também decidiram manter a passagem fronteiriça de Check Point Charlie, outro famoso ponto turístico local.

(Original aqui.)





07 de novembro de 1917

7 11 2009

Explode a Revolução Russa

A Revolução Russa explodiu no dia 7 de novembro de 1917, e representou um dos mais importantes fatos ocorridos na época e um dos mais violentos de todos os tempos. Foi uma revolta antigovernamental e espontânea, generalizada em todo o Império Russo. Aparentemente não teve direção ou controle, nem tampouco objetivo algum reconhecido. É geralmente considerada como o ponto de partida das mudanças políticas, econômicas e sociais na Rússia.

Seu impacto foi palpável tanto na América como na Europa. Ainda que a Revolução não tivesse feito expandir o comunismo como efeito imediato, deu a outros países convulsos do terceiro mundo um exemplo a seguir.

Com a Revolução Russa o proletariado se ergueu como condutor do conjunto dos oprimidos e instaurou sua dominação política assentando as bases de um novo regime social, sem exploradores nem explorados, abrindo um novo horizonte histórico para a humanidade.





Notícias de Berlim

6 11 2009

Gorbatchov se diz “orgulhoso” por queda do Muro de Berlim

da Efe, em Moscou
da Folha Online

O último dirigente soviético, Mikhail Gorbatchov, declarou-se nesta quinta-feira “orgulhoso” de que a queda do Muro de Berlim não tenha resultado em derramamento de sangue, já que 2 milhões de soldados soviéticos e ocidentais estavam destacados em suas imediações.

“Sou orgulhoso de que essa operação não tenha sido violenta. Preservamos a Europa. Ali estavam frente a frente 2 milhões de soldados e uma quantidade de armas que dava medo”, disse Gorbatchov à emissora de rádio “Eco de Moscou”.

Gorbatchov descreveu o Muro de Berlim –construído em 1961 e derrubado em 1989– como o “nu gordiano mais perigoso e incerto” do mundo durante três décadas.

Em sua opinião, o muro foi “necessário”, uma vez que soviéticos e ocidentais foram incapazes de entrar em acordo sobre o que fazer com a Alemanha, e decidiram dividir o país em dois e Berlim em quatro partes.

Gorbatchov –que irá a Berlim na próxima segunda-feira (9) para as comemorações em decorrência do 20º aniversário da queda do Muro, ao lado do ex-chanceler alemão Helmut Kohl e do antigo presidente dos Estados Unidos George W. Bush– disse que chegou a temer que eclodisse uma terceira guerra mundial.

Contribuição

Secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética (PCUS) entre 1985 e 1991, Gorbatchov assumiu após a morte do linha-dura Leonid Bréjnev e seus dois sucessores, Iuri Andrópov e Konstantin Tchernenko.

Diante do evidente colapso do regime socialista, ele realiza uma mudança rumo à democratização e a descentralização da economia em duas reformas: a glasnost (transparência), que leva ao abrandamento da censura, e a perestroika (reestruturação), um conjunto de reformas da economia prejudicada pela burocracia, corrupção e gastos exorbitantes na área militar.

As mudanças, que geraram resistência entre a linha conservadora do regime, incluindo o líder da República Democrática da Alemanha, Erich Honecker, levaram ao colapso final do comunismo e ao fim da ex-União Soviética –o que lhe rendeu o Prêmio Nobel da Paz em 1990.

(Original aqui.)